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As “catedrais”… que têm

Não venho falar de catedrais de futebol, nem me assusta que, para alguns, sejam mais importantes que as góticas do estilo de mãos erguidas… Mas que se abuse tanto da linguagem, pela sua carga semântica, semiótica e metafórica, a partir dos meios de comunicação social que temos, é de lamentar como o nível seja medido tão por baixo.

N/D
7 Nov 2003

Não admira pois que os portugueses exultem como se encham de orgulho por tão pouco. Sempre fomos pequenos e medíocres… – a avaliar o grande por baixo, como a medir o baixo em categorias de megalomania e grandeza.
Donde virá esta tendência para o exagero, que é uma aniquilação da historia, tradição e cultura? Com tais critérios e processos lúdicos mais parecemos jogar com expressões, que nos assemelham ao paganismo romano e confirmar na lógica de consumo, o que nos dilacera: «todo o burro come palha…»

Somos o único país da Europa com três diários desportivos, o que constitui o ridículo perante países mais abalizados, apenas com um, e semanal… Será o desporto o grande ópio a juntar a outros… como a compensar o que nos falta?

De povo de sonhadores e de nobres ideais, tornamo-nos um povo de futebolistas, mas não ganhamos campeonatos… Fortes em construir arenas, abandonamos igrejas bonitas ou deixamo-las vazias, para enchermos estádios e polarizarmos tensões, compensando tristezas ou limitações, que sempre encheram o quotidiano de muitos, eivados em quimeras e frustrações concomitantes, por falta de aceitação do realismo que temos.

A nova epopeia parece denunciar uma identidade perdida, um obscurantismo cultural e um peso de carga psicológica, que se pretende abater, elegendo os valores mais contraditórios, suprimidos os poucos existentes.

Quem nos fez assim? Onde estão os mentores da pólis? É este o resultado de tantas escolas e universidades a funcionar, como a mola propulsora de energias para o futuro, num mundo cada vez mais aberto a linguagens polivalentes, complementares, mas não em curto-circuito? Será assim que se desperta o dinamismo cinético da linguagem, ou pretende-se apagar resquícios existentes como complexos de culpa e insónia do que não existe, ou tão forte, que nos recusamos a negá-lo noutros avatares, mesmo disfuncionais, ou de metáforas puras com relações de pouca semelhança?

Vermelho de touros será símbolo de vitória, coragem mas não de águias, que voam por alto como de mensageiras, ou de gaivotas a pular que ajudam a atracar os navios, que, pretensiosamente, atracamos no cais das nossas manigâncias, fantasias e fogos fátuos. Os estádios mais parecem a paranóia de agentes que perderam o juízo, como endeusaram as pernas, substituindo cabeças por acéfalos e alienados. Pobre língua jogada com tais intenções!…

Se uma língua é, sobretudo, na sua expressão poética, a síntese completa de uma linguagem animada e silenciada pela emoção, intensificada pelo ritmo e transfigurada pela metáfora, mesmo assim tem leis que não nos permitem buscar semelhanças em contradições e explosões em circuitos de fechamento horizontal, confundindo dimensões verticais de mundos opostos, mesmo em metáforas impuras. Estaremos mesmo no tempo dos romanos, como quando endeusamos os supermercados – até abertos ao domingo -, catedrais de consumo que apenas alimentam o suporte visível do corpo, mas deixam estiolar ou asfixiam a alma?

Nesta ideologia veiculada corremos o perigo de confundir, perverter tudo e de transmitir às gerações futuras não apenas o que pretendemos salientar, como esconder o que constitui a nossa afirmação cultural de passado, pelo complexo subjacente, seja de castração ou de subconsciente freudiano num psiquismo doente, esquizofrénico ou amputado. Será o resultado de um jornalismo pretensioso e intelectualismo mal digerido?
Parabéns aos artistas da Comunicação Social que temos!…




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