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As «minudências» do senhor Pretor

Lembra-se o estimado Leitor do que mostrou e disse a TV (dia 3 de Setembro, salvo erro) acerca de Mário Soares, que o corroborou num programa da Rádio (4 do mesmo mês)?

N/D
5 Nov 2003

No Porto, um jornalista interpelara-o sobre o que pensava acerca do que dele dissera Paulo Portas no recente congresso do CDS-PP. Como Mário Soares, tempos antes, havia declarado publicamente que «Portas é um tumor maligno a extirpar», o Presidente do PP respondeu-lhe, no referido congresso, recordando a má descolonização de tão gravosas consequências, feita por Mário Soares.
Pois sabe o estimado Leitor o que respondeu o ex-Presidente da República ao jornalista que o interpelou, no Porto? Com um ar de importância intocável, citou-lhe um celebre adágio latino que diz: «De minimis non curat Pretor» – o Pretor não liga nem se preocupa com minudências. E lá se foi, ufano de haver dado uma magistral resposta!

Na minha modesta opinião, acho que não lhe ficou bem tamanha arrogância, como evasiva… Pretor era, para os Romanos, um altíssimo Magistrado. Logo, achei arrogância a mais, o que só traduziu, a meus olhos, um subterfúgio orante de quem ficara incomodado com o troco, dado por Portas, ao insultuoso epíteto de «tumor maligno»…

Já é antigo o provérbio «quem diz o que quer ouve o que não deseja»… Este episódio recordou-me outro, algo parecido. Um seminarista, aluno de Latim, apresentou-se a exame oral. O professor pediu-lhe apenas que declinasse (usasse os “casos”) do substantivo “aquila-ae”. O aluno cheio de prosápia convencida, respondeu com a aplicação prática, numa frase: «aquila non capit muscas» – a águia não caça moscas. Só que a resposta do examinador e psicólogo atento não se fez esperar: «neque ecclesia superbos» – nem a Igreja quer soberbos. O estudante, se passou no exame, não pôde ou não quis seguir a carreira…

Entre ser «tumor» e o haver sido responsável por tão má descolonização, talvez seja pior esta, por implicar um acto livre e responsável. Sim, porque a tal «exemplar descolonização» de que o «Pretor» tanto se vangloriou, mereceu da boca de Melo Antunes, antes de morrer, estas palavras: «não me digam que não havia outra saída; havia»…

Portanto, se o «Pretor» não cuida de minudências ou coisas insignificantes, nessa lista não pode caber uma descolonização feita à pressa e sem acautelar outros valores, tão respeitáveis como ela… As «minudências» de uns podem ser e são, muitas vezes, valores insubstituíveis… Arrogâncias e narcisismos cada um tome o quer…




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