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A escola mista e os seus problemas (1)

Já por diversas vezes, em artigos anteriores, se abordou o problema das escolas mistas que, pelo mundo inteiro, formam a maioria-tipo dos estabelecimentos de ensino existente. Excepção: o mundo islâmico e algumas escolas do mundo ocidental, que mantêm o ensino separado – fala-se dos graus de escolaridade não superior – como opção preferencial de carácter pedagógico.

N/D
4 Nov 2003

Muitas razões se poderão aduzir para escolher um ou outro tipo de ensino. Em matérias pedagógicas e didácticas não há soluções definitivas. Pelo contrário, trata-se dum campo em que tudo se encontra em constante evolução e onde a personalização da actividade docente, ou melhor, das relações entre docentes e discentes são passíveis de contornos diversos, de soluções variadas, que se mostram magníficas em certas circunstâncias e não dão resultado em tantas outras. Eis um mundo muito complexo, que ainda não descobriu panaceias ou dogmas infalíveis.
A implantação do ensino misto no mundo ocidental deveu-se primordialmente a razões extra-pedagógicas. Para ela concorreram mais opções de carácter ideológico, com certa frequência apoiadas na ideia de que havia uma discriminação negativa das raparigas em relação aos rapazes, que estes gozavam de certos privilé-gios que era necessário superar, etc.. Mas também apareciam defensores convictos de que a escola mista facilitava a relação mais equitativa e serena entre os jovens de ambos os sexos, porque a convivência entre eles acabaria por tornar mais natural o relacionamento e dar maior igualdade de oportunidades a uns e outros. Assim, evidenciariam melhor os seus talentos.

A democratização da escola mista deu-se principalmente nos anos sessenta. Nessa década – em alguns países um pouco mais tarde – para ela se avançou de braços abertos, sem grande sentido crítico e supondo que a coeducação iria resolver muitos dos problemas que a escola separada, vigente até então na grande maioria dos casos, levantava à juventude.

Quarenta anos depois, melhor dito, a pouco e pouco, os grandes entusiastas do novo sistema de ensino – incluindo as feministas que o defenderam com unhas e dentes -, começaram a notar que, afinal, as metas educativas que se pretendia atingir não se estavam a verificar. Certamente que a coeducação parecia ter vantagens inegáveis em alguns aspectos, mas que o problema do rendimento escolar e da violência não se resolviam com ela, descobrindo-se até que, em certas circunstâncias, tudo isso se agravava.

Frases como esta são hoje frequentes (referimo-nos ao conhecido sociólogo francês, Michel Fize): “Querem persuadir-nos de que a coeducação pertence à natureza das coisas, porque a própria sociedade é mista., e porque é, em si, democrática. Os factos, porém, provam o contrário. Deixemos de nos embebedar com palavras grandiloquentes”. E o mesmo autor, em artigo publicado há pouco tempo num jornal francês, acrescenta alguns pressupostos sobre a coeducação que não se cumpriram: “Ensino misto e igualdade: confusão semântica por excelência. Não se pensou durante longo tempo que a primeira geraria a segunda? Ensino misto e respeito: Não se afirmava que o trato entre rapazes e raparigas, favorecendo o conhecimento mútuo, suavizaria as suas relações? Ensino misto e emulação: Não se disse durante anos e anos que a coexistência entre sexos favoreceria a sua emulação? Os factos desmentem todas estas suposições. É preciso acabar com a ideia de que a escola mista é boa para tudo”. Ao fim e ao cabo, a coeducação, conclui: “(…) é um instrumento – talvez, em primeiro lugar, pedagógico – cuja legitimidade depende da eficácia”. E o sociólogo encontra-lhe, pelos resultados obtidos até ao momento, muitos buracos negros. Ao ponto de considerar que “desgraçadamente, em nome da neutralidade laica, o sistema educativo [francês] não deixa espaço para as diferenças. Não se tem nunca em conta os distintos ritmos de maturidade e de assimilação intelectual dos rapazes e das raparigas. Confundimos igualdade com igualitarismo”.
Continuaremos a tratar deste assunto.




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