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Qual é a verdadeira imagem de Portugal?

Da entrevista que o sr. Presidente da República concedeu a uma das televisões retivemos as suas preocupações com a justiça e a sua aplicação, com as escutas telefónicas, com o desemprego, com a competitividade ou falta dela, etc…

N/D
3 Nov 2003

Uma houve, no entanto, que mais nos marcou: a fraca, para não dizer péssima, imagem que Portugal tem nos vizinhos «mais próximos e mais longe», que o mesmo é dizer em Espanha e outros países da Europa. Ninguém gosta de ouvir dizer mal dos seus, ainda que haja razões mais que suficientes para ouvir. Portugal atravessa um mau momento. Custa-nos escutar as televisões e os jornais dizerem que o País ocupa sempre o primeiro lugar em tudo o que é mau e o último em tudo o que é bom. Fica-nos uma sensação de pobreza no corpo e na alma a vergonha, e não há um consolo que nos levante a moral e onde a esperança se arrime. O charco de águas lodosas está sempre dentro de nós e a pestilência das suas emanações conspurca tudo até ao mais íntimo do ser português.
Sentimo-nos tão pobres quanto desamparados. Estes discursos não ajudam e até nos dão a sensação de que quanto mais a gente se afoga mais nos carregam na cabeça. Sabem todos muito bem que a partir do momento que nos retirem a autoconfiança, sobrevive o desânimo e aparece a tendência para o miserabilismo. Na intervenção do sr. Presidente Sampaio a radiografia das moléstias do País foi feita mas faltou a terapêutica adequada. Será que a doença é ainda mais grave do que julgamos e já não tem cura? Ou será, como nos disseram há uns tempos uns colegas espanhóis, que «em Portugal alguns portugueses são bons». Mas não queremos a excepção, o povo deve exigir a regra. E isso compete a quem? Não a quem diagnostica mas a quem tem por obrigação procurar remédios. Ora quem os deve procurar é o Governo e, conjuntamente com ele, o Presidente da República. Não basta bradar que a casa vai abaixo, é preciso dizer: «não vai porque eu vou ajudar a sustentá-la». E foi isso que faltou naquela entrevista. Fez falta porque os filhos desta Pátria têm o direito de sentir orgulho na sua Terra, mas também porque ninguém investe, isto falando agora de economia, num país que tem esta imagem de braços pendentes, esta cara de condenado antecipado, este rosto de esquálido fatalismo. E esta espécie de sina é mantida por intervenções políticas, ou excessivamente optimistas como as do primeiro-ministro, ou excessivamente derrotistas como as da oposição. A um e aos outros, nem tanto ao mar, nem tanto à terra; procurem o meio termo mas nunca se esqueçam que apesar de sermos um país de pequena expressão económica, os olhos dos vizinhos estão em nós como se fôssemos de grande dimensão. Tudo serve a todos para nos denegrir e apoucar, até o episódio de Bragança veio à baila numa dimensão que, francamente, ou a revista Time estava sem assunto, ou então estamos perante uma publicação de pendor panfletário. Até parece que não conhece prostituição maior em Moscovo, nas redondezas do Moulin Rouge, em Paris, ou em Antuérpia ou Amsterdão, isto para não alongarmos a lista de lugares e países. Só viu Bragança como paraíso da prostituição! Este caso e outros espalham-se por aí fora numa proliferação espantosa de nódoa e não faltará muito que sejamos conhecidos na Europa e no Mundo, não como um país de heróicos Navegantes com mais de oito séculos de história, mas como um País de traficantes de droga, de mulheres e de pedófilos. Ao Presidente da República, ao Governo, à Oposição, à Comunicação So-cial, cabem a enorme responsabilidade de dar a conhecer a verdadeira imagem que Portugal tem. É um imperativo de Estado. São horas, meus senhores, de acabar com esta imagem que, para nossa desdita, meia dúzia de circunstâncias adversas criou… Para quando o contra-ataque? Para quando a restauração?




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