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O respeito pelo nosso património cultural

Volvidos mais de 20 anos, era urgente voltar a S.Miguel de Ceide.

N/D
30 Out 2003

Tudo se tornou mais fácil e interessante através da nova auto-estrada, sem qualquer sinalização para a casa de Camilo, mas com as indicações, à saída, de uma oficina, um restaurante, e também não a igreja… Chegado antes do tempo, a simpática guia, cuja anagnórise, nos tornaria mais próximos de família eclesiástica, não se regateou a abrir mais cedo a casa do escritor.
Foi de uma gentileza intraduzível, de um zelo, oportunidade e sabedoria exemplar tudo quanto mostrou. Ainda há bons e zelosos funcionários bem empenhados na sua tarefa…

Comigo algumas considerações de páginas camilianas, não tanto para ler, tresler ou transler o “Romance do romancista”, mas qual Eça, que, de fora entra superficialmente, nessa cela e repositório de livros – massoras e comentários -, móveis, tesouro, quartos, estantes e relíquias de um passado, onde o autor da Viúva da Candal, vivera os últimos anos na casa de Ana Plácido, propriedade que Pinheiro Alves legara por morte a um filho seu e da segunda mulher. Nessa casa tranquila aí escreveu muitas das suas obras-primas na escrevaninha, a lareira ou inspirado no velho cipreste. Aí pôs termo à existência, cheio de desgostos, acrescidos com a loucura do seu filho Jorge, em 1 de Junho de 1890.

A casa pelos vistos é mais visitada por forasteiros do que por residentes do nosso Minho ou de Trás-os-Montes!… Parar nessa casa, reviver alguns episódios da sua narrativa e crónicas, meditar na gnose e noese implícita e na tragédia interior de tantas personagens, quase sempre com um fim fatídico, é entrar, perscrutar e esquadrinhar o roteiro de um homem, que se compendia na sua obra e urge sério tratamento teológico, para compreender o mistério da sua poesia e do seu génio. Como João Bigotte, eu interrogo: “Onde estão os teólogos que ouçam e entendam o coração humano, este coração que só pára de sofrer, quando pára de pulsar, onde, os espíritos que partilhem a dor do outro e mais abertos ao verbo do outro do que aos sistemas que aprisionam? Ou são sujeitos ingramaticais, de tanto se darem a orgias de filosofia germânica?”.

Camilo era um espírito rebelde e refoge a todo o rótulo ou etiqueta, que garanta pertencer a esta ou aquela facção, fracção ou igreja. Franco – atirador nos processos e esquemas da sua narrativa, mas fecundo e popular clássico, dos que melhor usa o idioma português – o nosso Balzac, Dostoiewsky ou Dickens – , figura como o mais português dos escritores portugueses – o chauvinista ou “nacionalista”- , como lhe chamam os provincianos promovidos na capital. Vale a pena respigar alguns dos seus pensamentos:

Contemporâneo de várias revoluções, conhecia por dentro o íntimo do homem… o seu coração e o das mulheres! Tem uma voz quase universal. Como diz o citado ensaista, é escritor enraizado, é uma árvore de bom porte, que resiste a todos os ventos de mudança, da moda e da iclonastia, e não uma planta híbrida, como esses autores muito cosmopolitas, que, por falta de raizes e de seiva, não pegam de estaca em nenhum chão, condenados a serem apátridas em qualquer céu. Camilo não andou aí a oferecer-se à Europa, ao jeito de mulheres de um país humilhado ao exército invasor. Na sua hombridade de escritor infenso a uma fácil gloríola, pôs o arado neste agro duro, com a obstinada fé de que, cavando bem duro, usando bom estrume, regando-o de paciente suor, ele frutificaria. E as flores desabrocharam…

Assim dissecou e retratou este Minho, Douro e Trás-os-Montes com a sua fauna de lobos, “brasileiros”e abades. Retratou-os com o realismo consentâneo ao seu extremado subjectivismo, conforme o seu temperamento e gosto dos leitores, condenado a escrever para sobreviver. Não se soube comprazer na Idade Média, mas na História Contemporânea. Completando Eça, com um distanciamento objectivo, foi mais fundo, porque conhecia o coração e a alma portuguesa, neste vale de lágrimas, onde o riso até vai chorando e o choro é sarcasmo de sorrisos… Talvez fosse benéfico ouvi-lo e comentá-lo nos tempos que correm:

“O coração já não o sinto. Não tenho saudades de nada[…] se Deus me não der melhor vida depois, é que não há ceu”. Desespero, desilusão ou desencantamento?!…




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