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A catedral da Luz

Quase se perde a respiração ao visitar uma grande catedral gótica, de linhas esguias e múltiplas, colunas aparentemente frágeis, capitéis caprichosos, teias de abóbadas e profundidade de naves que nos falam muito da altura de Deus e da nossa pequenez. Ao contrário do românico, que revela um quase desprezo pela terra, pelo tangível, arrebatando-nos a um universo inacessível.

N/D
30 Out 2003

Sendo fruto de uma escola e de uma espiritualidade, as catedrais da Idade Média têm sido cada vez mais reclamadas como santuários de tradição, ciência e arte, para além de serem expressão religiosa e expressamente cristã, fruto de uma ascese aperfei-çoada pelos séculos e por homens e mulheres que, na intimidade de Deus, descobriam mistérios insondáveis da vida. Também alguns magos lhe têm dedicado estudos a mensagens secretas armazenadas nos alicerces ou nas cúpulas. Muitos se querem apoderar do sagrado.
O templo gótico cultiva a espiritualidade da luz, não apenas como espaço intimista para o homem se encontrar interiormente, mas para receber, a luz que vem de Deus, também por um fio coado de vitral, como que levitando todos os temores do homem para, na convergência secreta dos arcos, no jogo subtil dos imponderáveis, vencer todos os esmagamentos convencionais da pedra que, em vez de nos abater nos liberta, pela leveza que revela.

Em tudo isto fui pensando ao ouvir e ver, até à saciedade, o nome de catedral aplicado a um estádio de futebol. Pode querer dizer que este é o mais nobre dos estádios – catedral quer dizer cadeira, sede, lugar de poder e presidência – e isso não é estranho à lógica do jogo. Exprime-se, até, como o grande lugar de imolação, louvor, exorcismo, condenação de tudo o que não for o glorioso símbolo do clube.

Estão feitos alguns estudos aproximativos entre a religião e o futebol, com o seu conjunto de ritos, símbolos, regras, afectos e celebrações.

Curiosamente a inauguração da “catedral da luz” coincidiu com o dia litúrgico da Dedicação da Catedral de Lisboa. Poucos deram por isso. Possivelmente esquecidos que, com formas e fórmulas diferentes, estarão a celebrar elementos comuns na comunidade e na multidão, no altar e no relvado, na imolação e na vitória, no juiz e nos julgados, na imploração e na recusa. Mas que se anotem as diferenças.

Importa algum discernimento para não confundir um estádio e futebol ou o templo mágico de Harry Potter, com o espaço sagrado e celebrativo da fé cristã.




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