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Há que enfrentar as realidades…

Estamos em democracia e nela nos inserimos no plano internacional, sobretudo na Europa, a que pertencemos.

N/D
29 Out 2003

A democracia consagra a liberdade, mas esta é portadora de direitos e deveres.
Olhando, porém, o ambiente político que vivemos aproveitam-se os direitos e ignoram-se os deveres.
Acontece, infelizmente, que este conceito é aplicado na prática, na vida política que nos rege e, muitas vezes, reclamam-se os direitos e abafam-se os deveres.

Por este movimento político assistimos ao declínio da História nacional e às ideias fundamentais da verdadeira democracia, e desta forma se vê a democracia comprometida, desvalorizada e desrespeitada.

E estas realidades afectam a opinião pública e, consequentemente, a actividade política, mesmo quando se age para servir essa opinião.

Que acontece entre nós? Damos a palavra ao catedrático Jorge Miranda, professor de Direito na Universidade de Lisboa, o qual, em entrevista, publicada no semanário “O Diabo” de 7 de Outubro, disse:

«Os noticiários das televisões são embrutecedores. Dão histórias de crimes, de desgraças, histórias meramente locais, sem qualquer relevância, e isso não chega para formar… Basta pensar que nos noticiários das televisões, há sempre uma parte, e às vezes uma parte de leão, e às vezes até a abrir, de desporto. Quando digo desporto, digo futebol, porque o futebol absorveu praticamente todo o desporto».

Jorge Miranda não se limita a este comentário objectivo e vai mais longe. A sua palavra toca a formação dos jovens universitários e regista o que hoje se passa com o ensino. Diz o Professor:

«Há uma área em que é dramática a má preparação: a das ciências, o ensino da Matemática. E é uma área vital, porque sem Matemática não há ciência, sem ciência exacta não há tecnologia, sem tecnologia não há indústria. E a Matemática é importante noutras áreas, até para Medicina. E em alguns aspectos até poderia ajudar em Direito! Mas mesmo fora dessa área, há muita falta de preparação… Os alunos chegam à universidade muito mal preparados em português, têm dificuldade em falar, têm dificuldade em escrever, têm pouca cultura geral… E eu fico a pensar o que é que se passa no ensino secundário! Isto está também ligado à democratização do ensino… A própria elevação do nível geral de cultura do País é que poderá ajudar a que as pessoas desses meios entrem na universidade com maior preparação. E isto é agravado por dois fenómenos. Um é a televisão, que poderia desempenhar um papel educativo muito importante, e não desempenha, pelo contrário: os canais que temos são extremamente anti-cultura».

«O outro problema é o totalitarismo, o domínio do futebol na vida portuguesa».

Ainda na vida académica em Portugal assistimos ultimamente a um movimento violento dos alunos contra as propinas. Estes movimentos têm sido estudantis, evidentemente, e do corpo docente poucos têm assumido uma posição clara no assunto. Jorge Miranda, na entrevista que temos referido diz: «Há muitos anos que eu aconselhava que as propinas têm que ser actualizadas e aumentadas. E esta actualização é pequeníssima».

Foram poucos, a aceitar as informações da imprensa, os professores que tiveram a coragem de assumir esta atitude.

Quisemos trazer o pensamento claro, objectivo e actual para os nossos leitores a fim de ajuizarem devidamente o que se passa entre nós e a atitude dos que intervêm no problema por dever de função.

Compreendemos facilmente as atitudes verificadas, porque a universidade é uma instituição que diríamos independente de intervenções externas e que o ambiente interno torna muitas vezes difícil.
As partes interessadas – professores e alunos – com idades diferentes e responsabilidades conjuntas têm dificuldades em encontrar soluções conjuntas.

O presente e o futuro do País exigem, porém, um sentido consciente de responsabilidade, o qual deverá procurar obter-se no mútuo entendimento das partes, mas ambas as partes com a consciência responsável do presente e do futuro.

É que, nesta hora, vem-nos da Europa que está a trabalhar na sua Constituição, uma advertência: as divergências que traduzem o desprezo pela Europa histórica. Escreve Jorge Miranda: «Há uma tendência uniformizadora e centralizadora, jacobina que não faz sentido numa Europa tão diversa».

Entre nós e neste problema nacional que abordamos não cabe esta informação, para já. Mas impõe-se que todos os portugueses, nesta hora difícil que vivemos, nos encontremos em força para solucionar os problemas graves que se apresentam e dos quais importa destacar os da educação e do ensino.




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