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Portugal, alguns queijos e muitos buracos

Um leitor do diário catalão “La Vanguardia” decidiu apresentar uma reclamação ao provedor do jornal. Um provedor do leitor (“defensor del lector”, como se diz em castelhano) serve para isso, para escutar as queixas dos leitores e para lhes dar ou não razão. Dar-lhes razão significa, normalmente, que o jornal errou. E, se falhou, o provedor encarrega-se de indicar quais as consequências que devem ser tiradas. Desta vez, porém, ao que parece, o leitor, Jaume Morer Ferré, de Sant Cugat del Vallès, Barcelona, não tinha razão.

N/D
26 Out 2003

Para melhor apreciar um protesto, o provedor do leitor pode requerer explicações a um qualquer trabalhador do jornal, a um copy-desk, a um repórter, a um editor ou ao director. No domingo passado, Josep M. Casasús, “el defensor del lector”, não precisou de ouvir ninguém para sentenciar que o jornal tinha procedido bem quando resolveu qualificar uma determinada situação com um termo que o leitor julgava impróprio, mas que, efectivamente, a acreditar no provedor, não o era.
A história começou no dia 8 de Outubro, quando o diário disse que um determinado sítio parecia um “gruyère”. Segundo o provedor o referido queijo cumpre a função metafórica de descrever um local com muitos buracos. O leitor discordou porque lhe pareceu que o queijo mais apropriado para metaforizar a zona era o “emmental”, não o “gruyère”. O provedor, contudo, considerou que o imaginário popular identifica o “gruyère” com a abundância de orifícios. Daí que, para simbolizar o que está esburacado, se poderia acertadamente, acrescenta Josep M. Casasús, utilizar a metáfora do “emmental”, mas tal opção não serviria para provocar o mesmo efeito directo que a metáfora amplamente difundida do “gruyère”.

Para caracterizar um local, um facto, um estado das coisas, importa escolher bem as palavras. Se for necessário usar uma metáfora, é preciso que ela seja, em primeiro lugar, facilmente perceptível pela generalidade dos interlocutores, supõe o provedor do leitor de “La Vanguardia”. Sendo preciso indicar um queijo que consiga traduzir um determinado estado das coisas excessivamente esburacado, não parece absurdo que se mencione aquele que tiver mais buracos. O “emmental” devia, por isso, destituir o “gruyère”. Mas, se o “gruyère” é mais conhecido do que o “emmental”, pode–se então preterir o “emmental”.

Para falar do presente momento nacional, os que consideram que temos buracos em excesso podem, então, dizer que Portugal parece um “gruyère”. E, neste nosso rectângulo de queijo, não faltam buracos: o buraco do caso da Casa Pia, o buraco do desemprego, o buraco das listas de espera, o buraco das praxes académicas, o buraco da fraude e da corrupção, o buraco da violência doméstica, o buraco da fuga aos impostos, o buraco das falências fraudulentas, o buraco da sinistralidade rodoviária ou o buraco do mau urbanismo (há cerca de um mês, a Conferência Episcopal Portuguesa divulgava uma lista com os nossos principais buracos).

Os que vêem Portugal como um “gruyère”, têm, ainda assim, um ponto de vista positivo sobre a nação, pois são capazes de encontrar, ao lado de cada buraco, um queijo da melhor qualidade. No entanto, nas redondezas de cada buraco, é difícil ou impossível encontrar qualquer alimento. O buraco do caso da Casa Pia, por exemplo, parece menos o orifício de um queijo e muito mais um buraco negro. Como se sabe – e não é preciso ter conhecimentos de astrofísica para o saber -, um buraco negro engole tudo o que se aproxima dele. Qualquer pedaço de matéria que tombe num buraco negro está perdido para o resto do universo. Com o caso da Casa Pia, sucede algo semelhante. Mesmo pessoas habitualmente sensatas, quando se chegam ao assunto, são definitivamente engolidas.

Relativamente aos buracos negros, sabemos apenas que nada podemos saber sobre que se passa dentro deles. Qualquer teoria, mais ou menos engenhosa, sobre o assunto é, de momento, insusceptível de comprovação. Stephen Hawking afirmou que a entropia de um buraco negro é proporcional à área da sua superfície que, por sua vez, é inversamente proporcional ao quadrado da sua massa. Para os buracos portugueses, é possível encontrar leis bastante mais simples. Em boa verdade, os nossos buracos parecem governados pela primeira lei de Murphy – “se alguma coisa puder correr mal, correrá mal” – e pelos seus três corolários – “o que tiver de correr mal, correrá, e na pior altura possível”; “deixadas entregues a si próprias, as coisas tendem a ir de mal a pior”; e “é impossível fazer alguma coisa à prova de imbecis porque os imbecis são extremamente engenhosos”.




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