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Ensino público – Ensino privado

Saiu há pouco tempo a classificação da qualidade das escolas e sem surpresa viu-se que nas 10 melhores prevaleciam as escolas do ensino privado, tendo sido uma delas a primeira classificada. É um problema grave que se põe aos pais quando querem escolher o estabelecimento de ensino onde devem matricular os filhos. O ensino privado parcamente subsidiado pelo Estado torna-se muito dispendioso, uma vez que os pais, com os seus impostos subsidiam o ensino público e depois ainda têm de pagar uma alta mensalidade para os ter no ensino privado.

N/D
25 Out 2003

Mas voltemos à qualidade. Esta é avaliada, principalmente, pelos resultados obtidos pelos alunos nos exames finais do secundário. Será que no ensino público só se encontram os alunos menos dotados, e no privado os mais dotados? Puro engano e falo por experiência uma vez que trabalhei muitos anos no ensino público e também bastantes no ensino privado. Encontrei bem dotados e mal dotados num lado e no outro. A causa das boas ou más classificações não estão nos alunos, como também não estão na qualidade dos professores.
A meu ver as causas são outras. Vejamos algumas. No privado há uma certa estabilidade no corpo docente; no público os professores mudam de ano para ano, quando não mudam mais que uma vez no mesmo ano. Isto não favorece o conhecimento mútuo e a empatia professor-aluno, indispensável para um bom aproveitamento. Outra causa e muito importante prende-se com a disciplina: no ensino público ela anda pelas ruas da amargura e a falta de respeito para com os professores é manifesta.

Ora não havendo ordem como pode render uma aula? Os professores são mal tratados pelos alunos chegando, em casos extremos, que já não são poucos, às agressões físicas. Uma aluna foi transferida para uma escola e quando apareceu pela primeira vez nas aulas da nova escola uma professora perguntou-lhe a razão da transferência. A resposta foi: “A sêtora falou-me alto; eu disse-lhe para falar baixo e como ela não fez caso eu «mandei-lhe» com uma cadeira à cabeça”. Será que assim se pode trabalhar com sucesso?

Outra razão que, de certo modo, se relaciona com as anteriores é a atenção personalizada que os professores do privado dedicam aos alunos, coisa que se vê raramente no público. Numa entrevista um aluno do estabelecimento classificado em primeiro lugar refere isto mesmo: “(não cito textualmente); os professores nas aulas e fora delas estão sempre disponíveis para nos atender e tirar dúvidas e nas aulas fazemos muitos exercícios (quer dizer que trabalham) o que ajuda a fixar a matéria”.

Outro ponto que foi abandonado em má hora nos tempos da liberdade (leia-se libertinagem), foi a separação dos sexos. Está provado que rapazes e raparigas têm capacidades diferentes de aprendizagem quer em função da idade, quer em função das matérias. Os rapazes são mais voltados para as ciências e técnicas e as raparigas para as humanidades; por outro lado as raparigas «amadurecem» mais cedo que os rapazes e assim as capacidades de apreensão de conhecimentos dão-se em idades diferentes. Não quero dizer que elas são mais espertas do que eles. Nada disso. Tive alunas excepcionalmente inteligentes, mas tive alunos que não lhes ficavam atrás.

Nos estabelecimentos privados há também uma continuidade nos estudos. Muitas crianças entram aos 3 anos e saem para a Universidade. Isto dá uma estabilidade emocional e funcional que muito contribui para o sucesso. No público querem implantar as escolas integradas: 1.°, 2.°, 3.° ciclos e secundário, só que as estruturas não estão adaptadas e a convivência nem sempre é a mais saudável.

Há também um outro ponto que eu não queria deixar de tocar. No ensino privado olha-se muito à formação integral do aluno, quer nos aspectos morais, como sociais. Não falo no ensino religioso pois esse deve ser uma opção dos pais e mal vamos quando eles não encontram no público essa opção.

No ensino privado olha-se para os valores éticos que devem reger a nossa sociedade e procuram ajudar os pais na difícil tarefa de educar. Quem se preocupa com isso no ensino público? Uma colega contou-me que, devido à sua experiência profissional e ao seu perfil como professora, lhe confiaram uma turma em que a maioria dos alunos eram «um problema». E ela confidenciava-me: “Tenho alturas que me perturbam tanto a aula que eu não consigo dar a matéria, mas não os ponho fora da sala porque sei que eles se vão drogar para as traseiras dos pavilhões”.

Outro argumento a favor do privado é que, infelizmente, é mais procurado pelos que têm uma situação económica desafogada. Mas isso é positivo, uma vez que assim os mais desfavorecidos, que tem de frequentar o público podem ser mais auxiliados pelo Estado. O ensino privado é um supletivo indispensável do ensino público e a meu ver devia ser mais bem tratado pelas autoridades competentes, uma vez que sem ele o Estado não dava conta do recado.




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