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Porque…

Já disseste que sentias a morte perto. Treme-te a voz e tremem-te as mãos e tens o corpo cheio de dores. Se esperarmos muito mais tempo, talvez não tenhamos ocasião de te agradecer, e todas as palavras serão ditas tarde demais.

N/D
24 Out 2003

É muito conveniente dizer-te um obrigado imenso agora mesmo.
Porque só tu nos disseste a verdade.

Os outros disseram-nos aquilo que queríamos ouvir e aquilo que nos agradava – pois queriam ganhar adeptos e lucrar com isso – mas tu, como amigo sincero, não tiveste receio de usar as palavras verdadeiras. Ainda que fossem duras, ainda que corresses o risco de ficar sozinho.

Porque, se o caminho real era empinado e agreste, não nos indicaste outro mais à medida da nossa preguiça, da nossa avareza, da nossa luxúria. Não quiseste enganar-nos. Disseste-nos como podíamos encontrar-nos connosco mesmos e confiaste em que seríamos capazes de ser fortes.

Porque os outros quiseram enriquecer à custa de ficarmos desnorteados, e tu quiseste tornar-nos ricos gastando o teu sangue e a tua vida.

Porque o teu dia começa cedo e acaba tarde. Porque tens, com a tua idade, a agenda tão cheia. Rezas e trabalhas, mas ao rezares trabalhas e ao trabalhares rezas. Ninguém sabe dizer quando é que descansas.

Porque foi sempre para ti que olhámos em primeiro lugar, quando os poderosos preparavam novas guerras nos lugares onde há petróleo, quando o ódio derrubava edifícios, quando chegavam notícias de novos “avanços” científicos que pareciam fantásticos, mas nos cheiravam a esturro.

Porque os teus olhos são limpos e o teu sorriso é bom e o teu coração bate ao lado do nosso.
Porque és um dos nossos nas tuas vestes brancas. Porque envelheceste cuidando de nós. Porque foste baleado por dizeres a verdade. Porque não andas mascarado, como os outros.

Porque não ficaste no teu palácio de Roma, mas vieste ter connosco até aos cantos mais pequenos do mundo e quiseste aprender connosco e sentir os nossos entusiasmos nobres. Porque quiseste falar-nos nas nossas línguas.

Porque quando te apresentámos as nossas crianças tu as beijaste e abençoaste sem fingimento, como quem faz uma coisa muito, muito importante.

Porque quando olhas para nós vês uma bondade e uma força e uma beleza em que já não acreditávamos.

Porque o pequeno e o grande têm um lugar do mesmo tamanho no teu coração. Porque não te preocupaste apenas com os que te eram próximos no pensamento, mas resolveste carregar sobre os teus ombros as dores, as preocupações, os lutos e as lágrimas de todos os homens de todas as religiões.

Porque guardas no teu coração as nossas dores e sofres com elas e nós somos muitos. Porque de tanto te abraçares ao teu Cristo crucificado te tornaste tão humano. Porque também escreveste as tuas poesias.

Porque salvaste tantas vidas. Porque trabalhaste pela paz. Porque és um homem velho que está cheio da juventude do amor. Porque hás-de morrer repleto de obras e de sonhos e, ao olhares para as tuas mãos tão cheias, tens a impressão de as veres vazias.




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