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Manuais escolares

Neste começo de ano escolar falou-se muito da colocação dos professores. Tem-se falado – em minha opinião, com um nítido exagero, um grande aproveitamento político e dando a certas manifestações uma cobertura que não merecem – da questão do aumento das propinas no Ensino Superior. Pouco se tem falado dos manuais escolares para os ensinos básico e secundário.

N/D
23 Out 2003

Pode-se abordar o tema dos manuais escolares atendendo ao aspecto económico. Mercê do pluralismo em que se vive – em contradição flagrante com a tentativa crescente do monopólio estatal do ensino – existe uma proliferação de manuais escolares. Para a mesma disciplina há que escolher entre compêndios de vários autores.
Se a diversidade pode ser uma riqueza, em termos económicos não o é. O livro utilizado por um irmão pode, volvidos três anos, já não servir para o irmão seguinte. Ou para um amigo. Não porque esteja desactualizado, mas pela única razão de se ter decidido adoptar outro.

A diversidade de livros tem como consequência tiragens mais reduzidas, o que necessariamente se reflecte nos preços.

Mas um outro aspecto a atender é o do conteúdo dos referidos manuais. Estes devem ser um bom instrumento a colocar nas mãos dos estudantes e ter como finalidade contribuir para a instrução e educação de quem os manuseia.

O conteúdo dos manuais escolares deve ser criteriosamente seleccionado. Há-de cuidar-se do rigor científico. Há-de cuidar-se da linguagem em que são escritos os textos que reproduzem. Há-de atender-se aos comportamentos e ao estilo de vida que directa ou indirectamente veiculam. Há-de atender-se aos modelos e à espécie de «heróis» que apresentam. Há-de atender-se à imparcialidade com que abordam os diversos temas. Há-de procurar-se que também eles estejam ao serviço da formação do homem todo.

Considero muito infeliz, por exemplo, a ideia de se haver introduzido o regulamento do concurso Big Brother num manual de Língua Portuguesa destinado a alunos do 10.º ano.

Por muito que custe a certos indivíduos, ensino e educação têm de caminhar de mãos dadas, o que exige que também na elaboração dos manuais escolares se tenha como ponto de referência um conjunto de princípios e de valores que se devem ter presentes na formação de qualquer indivíduo em todo o mundo civilizado.

Tenho a consciência de que me vão qualificar de saudosista e de retrógrado, mas a verdade é esta: defensor como sou da verdadeira liberdade de ensino, não me repugna nada a existência do que noutros tempos se chamava o livro único. Sei que tem inconvenientes, mas também possui muitas vantagens. A existência de um só manual para cada disciplina, elaborado sem fins lucrativos por uma equipa de reputados especialistas científica e pedagogicamente competentes e ideologicamente isentos, com um mínimo razoável de anos de duração, certamente que não seria tão oneroso para quem tem de o comprar e talvez fosse um melhor instrumento ao serviço da missão formativa e informativa da escola.




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