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“A vida não acaba, apenas se transforma”

Omnia te, vita perfuncta, sequentur”. Todas as coisas te seguirão na morte.Lucrécio

N/D
23 Out 2003

“Uns vêm, outros vão, uns trotam, outros dançam, mas da morte ninguém fala. Tudo isto é muito bonito, mas quando o momento lhes chega, a eles, às suas mulheres, filhos ou amigos, surpreende-os e colhe-os de súbito e a descoberto”. (Montaigne, Ensaios).

Montaigne, autor renascentista francês, tem razão em afirmar que da morte ninguém fala, mas esta colhe-os de improviso.

É oportuno falar deste assunto, que representa uma realidade quotidiana, pois dele ninguém fala, a não ser através da necrologia que aparece nos jornais, quase sempre ilustrada com fotografias.
E quantas vezes somos surpreendidos com a notícia de alguém nosso amigo ou conhecido que longe estávamos de imaginar entrasse tão depressa no rol dos defuntos.

E assim foi que nos últimos tempos estranhámos a perda dum condiscípulo que se apresentava sempre escorreito, como pessoa saudável; a dum servente de pastelaria, que dias antes nos servia um reconfortante café; a dum político que durante anos e anos serviu denodadamente os interesses dos agricultores, etc.

Estes factos apelaram à minha pena para que redigisse umas breves linhas sobre este assunto que nos interessa a todos, pois dele ninguém se livra, talvez até mais depressa do que pensa.

Outro motivo também me incentivou: a leitura do citado autor Montaigne, traduzido para português e integrado na colecção EDICLUBE, que em boa hora adquiri. Em meu entender, é um dos autores renascentistas que melhor explana os temas clássicos, citando os autores gregos e latinos com as respectivas filosofias do estoicismo, epicurismo, platonismo, etc. E um dos temas bastante desenvolvido nessa obra é o da morte. Por ele verificámos aquilo que filósofos da antiguidade defendiam: a morte é um prolongamento da vida e deve ser encarada com naturalidade. E pode surgir em qualquer momento e lugar.

Esse autor cita exemplos imprevistos, como a de Ésquilo, que, segundo os oráculos, iria morrer com o desabamento duma casa, à maneira do nosso Papa João XXI, lá para os lados de Viterbo, Itália. Afinal, morreu debaixo duma tartaruga que se desprendeu, nos ares, das garras duma águia.
Emílio Lépido morreu simplesmente com a arranhadura dum pente quando se penteava; Caio Júlio, médico, morreu quando punha untura nos olhos dum enfermo; um rei francês acabou-se num torneio, no meio de festas e regozijos; outro rei finou–se num choque com um porco…

Deles se pode afirmar o que dizia Lucrécio: “Iam fuerit, nec post unquam revocare licebit”, depressa desapareceu e já não podemos evocá-lo.

No meio de tudo isto, há uma doutrina que verdadeiramente nos pode consolar: a cristã. “A vida não acaba, apenas se transforma”. A morte não é um ponto final na história humana. “Todas as coisas nos seguirão na morte, o bem e o mal que tivermos feito neste mundo”. É essa também a ideia da ressurreição. Cristo ressuscitou ao 3.º dia após a morte. Igualmente voltaremos à vida, se seguirmos os seus passos.

As considerações de Montaigne fazem-nos lembrar o pensamento católico, quando afirma: “Quem ensinasse aos homens a morrer, ensinar-lhes-ia a viver”. “A utilidade de viver não reside no tempo, mas sim no uso que da vida se faz”. “Desejo que a morte me encontre a plantar as minhas couves”.

Diante da realidade da morte, que todos os dias ceifa milhares de vidas em todo o mundo, desde velhos a novos, seria bom que pensássemos mais um pouco nela, à maneira dos antigos egípcios, que, nos grandes banquetes e festas, expunham num lugar bem visível um esqueleto, para que servisse de advertência aos convidados. Come, bebe, goza, que depois deixarás tudo e seguirás o teu destino eterno.

“Mil homens, mil animais e mil outras criaturas, morrem no mesmo instante em que vós morreis”.




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