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Os triângulos dos poderes e o futuro das cidades

Devo dizer que sempre entendi a questão do funcionamento perverso das estruturas ocultas de organização do poder (entendido em sentido amplo), ao nível autárquico, como absolutamente essencial para compreendermos um modelo de desenvolvimento ruinoso, assente na brutalidade do império do betão, que fez escola em Portugal no último quartel do séc. XX e que teima em persistir mesmo quando as suas fraquezas se encontram (ou deveriam encontrar) expostas ao ridículo. O problema, recentemente trazido a público em Braga sob uma forma geométrica que consiste num triângulo cujos vértices são a Câmara Municipal, clubes de futebol e os empreiteiros, não é, em bom rigor, uma originalidade bracarense, embora a existência, em Braga de uma concepção jurássica daquilo que deve ser o exercício do poder local torne esta cidade num exemplo claro de crescimento insustentado (e insustentável) ao qual está subjacente uma estrutura opaca de relacionamento entre os diversos “poderes”.

N/D
21 Out 2003

A reconstituição histórica do nascimento e proliferação deste modelo de gestão local que não chega a ser um modelo de desenvolvimento transporta-nos para um país que era, antes de mais, uma democracia imberbe com uma estrutura sócio-económica atrasada, onde o poder autárquico foi, num primeiro momento, um motor do desenvolvimento económico e do aprofundamento da vivência democrática que apenas começou a cristalizar-se na década de oitenta, com a consolidação, fortemente partidarizada, das estruturas políticas, empresariais e institucionais. Desde então, os autarcas tornaram-se dinossauros e os triângulos dos poderes cresceram e transformaram-se em eucaliptos.
O prolongamento temporal, mais ou menos penoso, desta concepção ultrapassada do exercício do poder, que tem a sua origem numa cultura democrática ainda periclitante, receosa perante a perspectiva de mudança e reverencial perante os detentores do poder, permitiu o florescimento da municipalização das instituições e de uma certa arbitrariedade silenciosa no exercício do poder político, que se traduz, entre outras coisas, no funcionamento de um clube de futebol como placa giratória de terrenos imobiliários, ou na febre das expropriações que acabam por não servir os fins de utilidade pública a que se propunham ou na cultura do aditamento que permite que, a meio dos processos de loteamento se permita aumentar o esforço de edificação sem o respectivo aumento das infra-estruturas básicas circundantes. O resultado deste processo mais ou menos silencioso, que contou, salvo honrosas excepções, com a passividade generalizada de uma cultura de cidadania frágil em que o povo e as elites sussurram nos cafés aquilo que não têm coragem de dizer em público, é uma cidade em muitos casos esventrada, “hiper-cimentada”, apertada e encolhida onde o crescimento a qualquer preço se sobrepõe à qualidade de vida dos cidadãos, onde uma rotunda pode ser considerada um espaço verde ou onde é preciso uma “pick-up” para recolher o lixo porque o camião não entra numa urbanização nova.

A questão do modelo de desenvolvimento de uma cidade é hoje, em Braga como por esse Portugal fora, também uma questão geracional. O que ontem era aceitável, hoje já não serve. Uma filosofia de gestão e um programa político sérios, que ultrapassem o mito do crescimento insustentável e ponham fim aos triângulos dos poderes devem ser uma exigência de cidadania. Há quem queira viver com qualidade durante muitos anos e bons, pelo que não nos devemos esquecer que a jusante de um modelo de “desenvolvimento” de-crépito pode estar um futuro comprometido. Eu acredito que Braga tem futuro se ousar inverter este caminho. E o leitor, acha que daqui a trinta anos vai ser bom viver em Braga?




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