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Os novos ditadores

O dr. Alberto João Jardim quer retirar poder à comunicação social, impor-lhe regras de conduta ou limitar-lhe áreas de acção. No seu entender a comunicação social tem um poder corporativo excessivo, talvez desmedido. Aqueles que têm como função relatar o que sabem, quer este saber lhe seja confiado por fontes fidedignas, quer resulte de investigação jornalística, têm, como primeiro dever deontológico, informar e publicar a verdade. Brada o sr. presidente da Madeira que é demais aquilo que dizem e, aos berros e gestos desmedidos, em sui generis idiossincrasias, afirma que há que cercear tal poder. Ora isto é a confissão de quem gosta de mandar sem ter olhos por perto.

N/D
20 Out 2003

João Jardim confessa deste jeito que tem medo da comunicação social. Os que nada têm a temer dormem descansados. Os sobressaltos são a expressão de consciência pouco tranquila. Por vontade do líder madeirense voltávamos ao lápis azul, instituindo novamente os cortes nos textos e reduzindo as redacções dos jornais e das televisões a meras reprodutoras de agências noticiosas convenientes.
Convenientes para quem? Já se sabe a resposta e não vale a pena desenterrar velhos fantasmas, mas valerá sempre a pena estar atentos porque, como se vê, não faltam saudosos da censura do passado. Só os ditadores temem a comunicação social; ditador é todo aquele que pretende governar sem oposição de ideias e, deste modo, deseja perpetuar-se no poder. Mesmo que tenha chegado até ele através de escolha democrática? Quando qualquer político se prende ao poder por muito tempo, é certo e sabido que nessa perpetuação há muito de subtil vontade ditatorial e muito pouca predisposição democrática. Aznar é um exemplo que choca pelo contraste. Esteve ao serviço da Espanha durante o tempo que entendeu ser suficiente para concretizar os objectivos da sua política, a bem da sua pátria, e, agora, que os achou realizados, vai-se embora sem que ninguém o mande, sem ser preciso, inclusive, criar leis de limitação de mandatos. Os novos “ditadores” não procedem assim, estão no sistema democrático como excrescências deste mesmo sistema. Se estão com todo o apego no comando das coisas e não têm nenhum pingo de democracia em si mesmos, então achamos bem e urgente que haja uma lei que os limite, isto é, que lhes limite os mandatos. As lapas do sistema estão bem agarradinhas e a simples suposição de que podem ser postos de lado e deixarem de ter as passadeiras vermelhas e as continências a que se habituaram, fazem-nos suar frio e farto. Estas lapas possuem o seu penedo e já não é o penedo que os possuem a elas. O gozo do poder é muito e o sacrifício é pequeno. Também é verdade que a corte que os rodeia sofreria talvez tanto ou mais que eles, se eles perderem a cadeira de espaldar. Porque assim pensamos e assim o escrevemos e pelo que muitos outros mais dizem e pensam e publicitam, é que o sr. Presidente da Região Autónoma da Madeira bate com o pé a ver se os assusta; outros aplaudem baixinho na mira de acertarem com o tom. Temos a convicção plena que isto é uma orquestra com poucos maestros.
Berre à vontade sr. Alberto João, caudilhe as lapas da democracia quanto quiser, ou puder, porque a comunicação social saberá contar a verdade dos factos – não se calará, não se intimidará e não as escamoteará, por muito que isso o incomode.




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