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Discernir

Reflectir sobre o magistério de João Paulo II a propósito das suas bodas de prata é adquirir uma compreensão mais viva e completa não apenas do percurso da Igreja Católica nos últimos 25 anos, mas da história da Humanidade. Muito tem sido dito e mostrado, nestes dias. Não se terá, talvez, sublinhado suficientemente o fenómeno mediático em que o Papa se converteu. Onde quer que ele vá, tem cobertura garantida. Há as multidões que se juntam para o ouvir e com ele rezar, sobretudo os mais jovens. Mas o próprio Papa soube, desde a primeira hora, incorporar, nas suas aparições públicas, suficientes ingredientes daqueles que fazem as delícias de um certo jornalismo. Acresce que construiu um magistério digno de nota relativamente ao universo e à pastoral da comunicação e dos media.

N/D
20 Out 2003

O meu contacto com este Papa deu-se de forma singular. Integrei, como jornalista, a comitiva do primeiro-ministro que, em 1981, foi ao Vaticano convidar o Papa para vir a Portugal. E, quando, no ano seguinte, essa viagem se efectivou, fui como enviado especial a Roma, para acompanhar João Paulo II até Lisboa. Como é da praxe, os jornalistas foram metidos no avião da Alitalia mais de meia hora antes de o Papa entrar e, ao contrário do que é habitual, por qualquer razão, o Papa não veio falar com os jornalistas durante o voo. À chegada à Portela, os jornalistas voltaram a ser retidos, enquanto o visitante não saía. Em resumo, eu e outros, que viajamos com o Papa desde Roma, fomos vê-lo ao vivo, pela primeira vez, em plena Praça do Rossio, depois de milhões de portugueses que ficaram tranquilamente à sua espera em Portugal.
João Paulo II desperta em mim um sentimento de profunda admiração, sem que tal me impeça de ser muito crítico relativamente a algumas orientações que imprimiu na vida da Igreja. Mas não se pode negar que ele constitui hoje, no panorama internacional, uma referência sólida que, pelo menos no campo da vida pública, não descurou em nenhum momento a luta pela dignidade da vida humana e de cada ser humano. E um dos sinais dessa dignidade é precisamente a capacidade de discernimento.

Curiosamente foi essa a dimensão sublinhada, num recente programa na RTP sobre o Pontífice, pela jornalista Aura Miguel, acompanhante regular das viagens de João Paulo II. Num voo em que teve mais sorte do que eu, perguntou-lhe o que deveria fazer para ser uma boa jornalista. O Papa, depois de um silêncio prolongado, respondeu com um verbo: «discernir». Não se poderia ser mais rigoroso e exigente numa resposta.




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