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Queremos conhecer a sua opinião

É uma frase comum em determinados programas sobretudo radiofónicos. «Queremos conhecer a sua opinião», dizem. Escolhem um tema e depois dão livre voz à participação dos ouvintes, cuja opinião querem, portanto, conhecer.

N/D
19 Out 2003

«Hoje colocamos a pergunta: pode a educação…», assim pode começar, por exemplo, o programa que podemos chamar “Quorum da BSF”.
O resto da pergunta não se ouve por causa de um brevíssimo corte de corrente que cala a rádio por três ou quatro segundos. O locutor não tem tempo para pedir desculpa pela ocorrência, se é que a pretendia pedir, nem para repetir a pergunta porque a primeira resposta já estava no ar.

Durante cerca de uma hora, é mais ou menos assim esta espécie de reunião de palpitadores anónimos:
Locutor: Já temos o primeiro ouvinte em linha. Bem-vindo ao “Quorum da BSF”.

Ouvinte 1: Bom dia ao “Quorum”, que ouço sempre que posso. Relativamente ao tema de hoje, eu acho que a educação é mas é uma pouca vergonha. Ninguém respeita ninguém. As culpas? Para mim, têm de ser repartidas pelo governo e pela oposição que também já lá esteve e não fez nada.

Locutor: Muito obrigado. Passamos ao próximo ouvinte. É o senhor Jaime que nos liga do Montijo…

Ouvinte 2: Bom dia. Parabéns pela oportunidade do tema…

Locutor: Pedia-lhe para pôr a rádio mais baixo…

Ouvinte 2: Já está no chão. Não posso pôr mais baixo… Desculpe lá, era uma piada…

Locutor: … Muito obrigado pela sua participação…

Ouvinte 2: … Mas eu não acab…

Locutor: A dona Maria liga-nos de Alcobaça. Bom dia…

Ouvinte 3: Agradeço a oportunidade que me dão de participar neste verdadeiro espaço da democracia, neste verdadeiro parlamento de todos os portugueses. Os nossos governantes deviam deitar os ouvidos a estes programas para saberem o que o povo pensa.

Olhe, eu acho que agora é tudo… não sei como é que hei-de dizer… tudo… Olhe, agora parece que anda tudo a roubar e a televisão só mostra gatunagem e poucas-vergonhas.

A escola já não faz nada. Passam as aulas todas a ver o “Big Brother” como ainda há dias uma professora dizia na televisão. O “Big Brother”, calcule-se. O Joel e a maluca da Teresa Guilherme é que ensinam a sociedade. E da parte da religião também, como é que… O senhor cardeal disse uma coisa…
Locutor: Estamos a afastar-nos do tema e ainda temos muita gente para ouvir. Temos agora em linha Luís Belgado.

Luís Belgado: Em relação à educação, a culpa é dos socialistas. Em relação à educação e em relação a tudo. Se houver culpas, elas são dos socialistas.

Locutor: Muito obrigado. Vamos agora ouvir um especialista em questões educativas, o professor Silva.

Ouvinte 3: Nós temos um problema estrutural na sociedade portuguesa que ninguém tem ousado enfrentar. A educação deve ser perspectivada no contexto de um desafio para a complexidade congénita de um evoluir que se quer estruturante de uma fundacionalização que necessita de ser encarada com frontalidade e a tempo. Só assim responderemos ao que o futuro reclama.

Locutor: Muito obrigado. Passamos já ao próximo ouvinte…

Ouvinte 4: Esta é a terceira vez que participo no “Quorum”. Já tentei participar mais vezes, mas os telefones estão sempre interrompidos. Quando no dia 16 de Julho participei no “Quorum”, uma senhora que falou depois de mim disse que eu não tinha razão porque a pedofilia…

Locutor: Eu pedia-lhe que não se afastasse do tema de hoje…

Ouvinte 4: Então, só queria fazer minhas as palavras do senhor que me antecedeu. Ele tirou-me as palavras da boca.

Locutor: Obrigado. Bom dia agora ao senhor José Maria…

Ouvinte 5: Olhe, eu queria aplaudir Paulo Portas que obrigou os mancebos das escolas a ouvir uma aula de História de Portugal e o nosso hino. As pessoas que atacam o nosso ministro são as mesmas que querem obrigar os nossos alunos a ir ao “Big Brother” como disse há bocado uma senhora ouvinte que denunciou uma situação terrível que é a seguinte: os livros dos nossos alunos são feitos pela Teresa Guilherme.

Estamos a mandar os nossos jovens directamente para a droga, é o que é… Portugal precisa não de um Salazar, mas de um verdadeiro Schwarzenegger.

Locutor: Estamos na recta final do programa, mas ainda temos tempo para ouvir Maria de Jesus, doméstica, que nos liga de Vila Nova de Famalicão.

Ouvinte 6: Eu só queria dizer que é preciso manifestar o direito à indignação. Eu pago os meus impostos e agora o que é eu que vejo? Realmente é droga por todo o lado, como disse o ouvinte ante-rior. É este o país que queremos? Mas não é só na educação que está tudo mal. Veja-se a saúde. Os médicos é uma pouca vergonha. Era tão simples acabar com as listas de espera.

Locutor: Estamos novamente a afastar–nos do tema. Pedia ao senhor Silvino de Faro que fosse muito breve.

Ouvinte 7: Para ser breve: os grandes (os tubarões) é que se governam. Os pequenos (o peixe miúdo) é que se tramam. De qualquer maneira, anda tudo a gamar. E a educação não há meio de dar a volta a isto.

Locutor: Chega ao fim esta emissão em que se pretendia ouvir as respostas a uma pergunta que não chegamos a fazer. Voltaremos de novo amanhã com um novo tema.

«Queremos conhecer a sua opinião», diziam no início do programa. Agora que ele findou, continua sem se perceber para que é que eles querem conhecer estas opiniões.




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