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A situação das meninas na Índia

Vai ser beatificada amanhã em S. Pedro de Roma a Madre Teresa de Calcutá que dedicou a maior parte da sua vida aos mais desfavorecidos da Índia.

N/D
18 Out 2003

Morreu em 1997 e logo em 20 de Dezembro de 2002, João Paulo II recebeu os responsáveis da Congregação para a Causa dos Santos. Foi então reconhecida a heroicidade das virtudes da Madre Teresa e é apresentada a confirmação de um milagre obtido por sua intercessão – uma jovem indiana tuberculosa e com um tumor no abdómen ficou curada após ter pedido à Madre Teresa e de as Missionárias da Caridade, Congregação que ela fundara, lhe terem colocado sobre o corpo doente uma medalha da sua fundadora.
É um caso notável de celeridade de um processo de beatificação. A morte ocorreu há 6 anos somente. João Paulo II quer beatificar pessoas que viveram nos nossos dias, para melhor servirem de exemplo. A rapidez do processo de beatificação não deixou, contudo, de seguir todos os trâmites legais.

O seu trabalho e o dos membros da sua Congregação foi notável na Índia e isso levou-me a abordar um problema que persiste nesse país, contra o qual a Madre Teresa muito lutou – a discriminação da mulher. Essa discriminação começa mesmo antes do nascimento e se os exames não detectam que a criança que vai nascer é do sexo feminino e portanto não praticam o aborto selectivo, o infanticídio feminino vem colmatar essa falha.

O primeiro chefe de estado da Índia – Jawaharlar Nehru – disse: “Pode avaliar–se o estado de um país vendo a situação das mulheres que lá vivem”. Contra essa discriminação muito lutou a Madre Teresa e algo ficou.

O governo da Índia proíbe os diagnósticos pré-natais, para evitar que as mães recorram ao aborto no caso do feto ser do sexo feminino.

Enquanto a vinda de um rapaz é um factor de orgulho e a esperança da família, uma menina é vista como uma carga. A lei proíbe, mas o dinheiro consegue, clandestinamente, dar essa informação o que leva a que cada ano milhões de fetos femininos sejam abortados, acarretando assim grande desproporção entre o número de homens e mulheres no conjunto da população.

Para o demógrafo A. R. Nanda, esta desproporção é um reflexo da grande migração de famílias para as cidades, em busca de melhores oportunidades de trabalho e de melhor educação para os filhos, sobretudo se são rapazes.

As mulheres permanecem no campo a trabalhar e só os homens se deslocam.

Mira Shiva que tem uma Organização Não Governamental – Associação Indiana do Voluntariado para a Saúde – pensa que vão ser precisos mais de dez anos para que o feticídio feminino acabe; é preciso que as próprias mães, que o praticam, tenham a certeza que a filha que lhes vai nascer vai ser respeitada e considerada com todos os seus direitos. Sem isso nada feito e isso, que implica uma mudança radical das mentalidades, leva tempo.

E qual a principal razão do feticídio feminino? O dote. O sistema matrimonial da Índia exige à família da noiva enorme despesas, entre as quais o dote é a mais pesada. Assim uma menina desde que nasce é vista como uma enorme carga financeira para a família.

A razão profunda pode buscar-se na falta de acesso à educação por parte das mulheres. O curioso é que se elas conseguem prosseguir estudos têm mais sucesso que os rapazes.

Sangueeta Bathi afirma: “Mesmo que mo não tenham dito francamente, sempre senti que a minha família via que o dinheiro investido na minha educação era um desperdício, pois no fim o que eu produzisse seria para a família do meu marido”.

Agora já com dois filhos, um rapaz e uma rapariga ela quer que a filha faça carreira como o irmão e leve uma vida normal como qualquer rapariga doutro país sem a mentalidade indiana.

Felizmente as coisas estão a mudar e já se pensa que “ao educar uma mulher, não só se está investindo na sua pessoa, mas numa família inteira, pois ela é o pilar da formação dos filhos”, disse recentemente o doutor Bernardo Villegas economista em Harvard.

Por enquanto o dote é uma prática obrigatória e muitas vezes produz uma exploração por parte da família do noivo que vai exigindo sempre mais e mais dinheiro. O problema só se resolverá se houver coragem política de fazer uma lei que proíba o dote.

Madre Teresa de Calcutá, confrontada com a eminência de tantos abortos, costumava clamar em voz audível, até pelas autoridades: “Não matem as vossas filhas – dêem-mas”.

Estou certa que se ainda vivesse e com o respeito que conseguiu alcançar da parte das autoridades, ela seria uma das primeiras a favor da lei contra o dote, para assim evitar muitos abortos.




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