Fotografia:
Cinza e fumo de vinganças

1A 1.ª e 2.ª vagas do ataque
Quando por fins de Agosto último o tempo arrefeceu um pouco, os principais incêndios que lavravam quase ininterruptamente desde meados de Julho, puderam ser finalmente dominados e extintos.
Pensou-se então que a vasta quadrilha dos incendiários podia finalmente ir de férias com o sentimento do “dever cumprido”; até porque, já nessa data as fotografias de satélite indicavam que todos os recordes haviam sido batidos. E batidos na casa dos 250% (duas vezes e meia!) cifrando-se a área ardida, entre floresta, mato e pastos, na ordem dos 500.000 hectares. Estes 500.000 hectares equivalem a um rectângulo com 100 kms de comprido por 50 kms de largo, para quem não saiba…

N/D
17 Out 2003

Porém, quando no início de Setembro o tempo voltou a aquecer e as condições voltaram a estar propícias à disseminação dos fogos-postos, os incendiários “regressaram ao trabalho”. E não se diga que não é assim, pois é fácil de constatar que as áreas vitimadas em Setembro são basicamente um prolongamento das que arderam em Julho-Agosto. Foi o caso do grande incêndio de Odemira, que prolongou os 80% da área ardida do concelho de Monchique. Foi o caso da destruição brutal do conselho de Nisa, vizinho do martirizado distrito de Castelo Branco. Mas houve também novos casos, como a tapada de Mafra e o vasto fogo da serra de Montejunto.

2. O clima tem pouca influência

A circunspecta Polícia Judiciária reconheceu que mais de 30% dos milhares de fogos registados têm provadamente origem criminosa (e a estes juntam-se os quase 40% que são arquivados por terem causas “indeterminadas”…). Isto bate certo com o facto de distritos haver este ano (p. ex. Braga, Porto, Aveiro, Coimbra) em que pouco ardeu e onde, contudo, as temperaturas foram, semanas a fio, idênticas às de Beja, isto é, na ordem dos 36-38o. A provar isto está, por exemplo, o grande incêndio que lavrou na serra de Valongo (Porto), ainda em Junho e com temperaturas baixas, na ordem dos 25o. Quase tudo é, pois, fogo-posto organizado ou negligência tão grosseira que parece, ela própria, acto intencional.

3. Afinal não era o mato por cortar…

Pouco experimentado a respeito da problemática desta “indústria dos fogos”, o governo de Durão Barroso quis de início atribuir a culpa da tragédia aos proprietários que não cortavam os matos. Esquecendo-se que o mato (o “sub-bosque”) é também uma riqueza botânica natural de elevado valor, “habitat” de muitas espécies de répteis, mamíferos e aves. Claro que o mato favorece a propagação dos fogos! Mas só arde se algum criminoso lhe deitar fogo. Logo, o problema não está nos arbustos (que, é lógico, devem ser cortados de vez em quando) mas está sim na existência de criminosos e de interesses criminosos organizados (os das celuloses, dos eucaliptos, dos madeireiros, dos alugadores de meios aéreos, dos chefes de bombeiros que comerciem material para combate aos fogos, dos especuladores imobiliários).

Errando pois na abordagem do problema, o Governo chegou a lançar a ideia de penalizar com um qualquer imposto as centenas de milhar de proprietários que não dessem cabo de todos os tojos, urzes, giestas e estevas, rosmaninhos e lavandas dentro dos seus pinhais. Tudo para minorar o “déficit” da Dr.ª Ferreira Leite. Mas a evidência dos fogos-postos desactivou esta nova mina de ouro das Finanças Públicas.

4. As revelações escandalosas

Este ano soube-se que os meios aéreos também largavam bombas incendiárias (testemunhos de Irene Barata e Carlos Tuta, presidentes das câmaras de Vila de Rei e de Monchique). Que os caríssimos aerotanques despejavam com frequência as caldas retardadoras sem convicção nem pontaria. Que os aviões que combatiam o incêndio algarvio de Monchique se iam abastecer a… Lisboa! Que os helicópteros servem regularmente para táxi ou para passeios, em certas partes do país (Lamego, por exemplo). Que, como disse acima, a PJ já reconhece mão criminosa em 34% dos incêndios. Que arderam mais de 1000 edifícios (entre moradias, currais, escolas, armazéns) já para não falar das linhas telefónicas e de electricidade; ou das travessas da linha da CP, na Beira Baixa; ou dum campo de futebol (!) no Ribatejo, em Amiais. Soube-se ainda que a água da rede pública já vai aparecendo inquinada em vários concelhos, pelas cinzas, carvões, detritos e terras que deslizam, pois já não têm o suporte das árvores.

Soube-se também que morreram carbonizados 23 civis (parece que foi assim batido o recorde da serra de Águeda, nos anos 80, e dos 14 heróicos bombeiros de Armamar, no mesmo período). Constata-se ainda que arderam serras inteiras: Montejunto, Monchique, Valongo, Açor, Muradal, Cabeço Rainho, São Mamede em Portalegre, Reboredo em Moncorvo. E novidade é também o facto de o povo português ter talvez, finalmente, acordado para a vertente criminal dos incêndios. Será desta?

5. Ilustres incêndios desconhecidos

Falou-se muito de alguns fogos, sobretudo os da Beira Baixa, da Batalha, Nisa, Montejunto, Mafra, Monchique. Mas eu próprio tive ocasião de visitar outros sítios onde a destruição foi quase total, embora pouco publicitada. É o caso do incêndio de dezenas de quilómetros quadrados nas inclinadas margens do Tua, nos concelhos de Mirandela e Carrazeda, onde até as numerosas fragas estavam queimadas (“incêndio do Abreiro”). É o caso do incêndio do que restava dos pinhais de Pegarinhos, perto de Murça. É o caso da grande área ardida em Freixo de Espada à Cinta e Mazouco (em pleno Parque do Douro Internacional…). É o caso dos vastos incêndios da floresta antiga de sobreiros e azinheiras na Idanha-a-Nova (e Oledo) onde, por fases, ardeu quase tudo, incluindo casas. É o caso de Amieira do Tejo, onde ardeu tudo à volta. É o caso dos incêndios de Moncorvo (na serra do Reboredo e na Foz do rio Sabor).

6. Os “bombeiros do alcatrão”

A expressão, que acho curiosa, não é minha, mas de um ouvinte indignado, num programa de rádio, o qual tudo perdera, salvo erro na zona da Sertã. É que, perante as dimensões da catástrofe, os “soldados da paz”, bastante mal comandados, limitavam-se a defender pessoas e habitações (quando não era o caso de apenas se limitarem a evacuar essas populações). Impotentes que se sentiam no que toca à defesa das florestas e dos gados.

7. É “triste”

A palavra “triste” era a mais usada pelos entrevistados na TV para retratar as devastações até agora inauditas. Ainda que lesados nos seus patrimónios só sabiam dizer “é triste, é triste”. Poucos (alguns, é certo) exprimiam sentimentos de revolta ou clamores de justiça… Nisto está transformado o nosso povo, num rebanho dócil e inculto, acrítico e sem valores.

8. Fumos de vingança?

Os 150 a 200.000 hectares anuais de área ardida foram neste ano de 2003 raivosamente triplicados. Houve este ano alguma componente importante do factor “vinganças pessoais”, o qual em anos anteriores foi factor de dimensão limitada? Haverá alguma ligação aos prejudicados pelo processo da Casa Pia? Serão rivalidades entre os fanáticos caçadores do Regime Livre contra os igualmente fanáticos mas mais abonados adeptos das Reservas da Caça? (É que arderam muitas destas, mesmo). Haverá alguma ligação ao caso dos prejudicados pela fusão do Serviço Nacional de Bombeiros com a Protecção Civil? Haverá vingança dos madeireiros da Beira Baixa contra os muitos proprietários ausentes (em Lisboa, em França) que não autorizavam que os seus belos pinhais (alguns com 40 ou 50 anos) fossem cortados?

9. O remédio

Este ano foi um ano excepcional. Mas as causas primeiras dos incêndios continuam. Sobretudo a primeira de todas (e mãe de todas as outras). Que é o interesse que a indústria de papel (nacional e estrangeira) tem em transformar os nossos belos e variados arvoredos europeus (pinhais, carvalhais, sobreirais, azinhais, olivais) em eucaliptais, enquanto nós continuarmos um povo inculto e não percebermos a ligação óbvia que há entre o fogo e a subsequente eucaliptização. Portanto, devia-se ordenar o território e reservar apenas a décima parte, por exemplo, para o nefasto eucalipto (e concentrá-la, geograficamente).

Por outro lado deviam perseguir-se os incendiários e os mandantes com penas efectivas de mais de 20 anos. Com a importante ressalva de que, se o executante (normalmente um jovem toxicodependente completamente alienado dos verdadeiros valores da vida) denunciasse o mandante, o executante cumpriria apenas 6 meses ou um ano.

Acreditem que só assim se puxaria o fio à meada e Portugal, dentro de 10 anos, voltaria a ser o que D. Sancho, D. Fernando e D. Dinis para ele sonharam. E que está ao nosso alcance realizar.




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