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A luta contra o cancro: o “crime” do Estado português

Todos os anos, nos fins de Outubro e princípios de Novembro, a Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC) realiza um peditório nacional destinado à luta contra esta terrível doença. Conhecedores que são dos escassos recursos que o Orçamento de Estado dedica à Saúde, em geral, e os enormes desperdícios verificados no sector – onde, como se sabe, se movimentam lóbis poderosíssimos -, os portugueses têm contribuído generosamente para aqueles peditórios, assumindo as suas dádivas como cumprimento de uma autêntica obrigação moral e social.

N/D
16 Out 2003

Com estes contributos e com o apoio do Estado, o Instituto Português de Oncologia, através de todas as suas extensões, e vários hospitais, com particular destaque para os universitários, têm propiciado excelentes condições de tratamento da doença, quer a nível cirúrgico, quer a nível da quimioterapia e radioterapia. E, pelo que se vinha ouvindo, tal situação colocaria Portugal em posição semelhante à que se verificaria na generalidade dos países europeus.
Com base nesta percepção, cuidava eu que nada nos diferenciava dos nossos parceiros comunitários e que, por isso, não nos restava senão aguardar que o progresso das investigações científicas e os avanços tecnológicos nos trouxessem rapidamente a cura, ou pelo menos, um tratamento mais eficaz da doença. Puro engano o meu!

Lendo no passado Domingo a excelente entrevista que o Prof. Doutor Manuel Sobrinho Simões, galardoado com o prémio Pessoa 2002, professor catedrático e director do Instituto de Patologia e Imunologia do Porto, concedeu ao “Público”, fiquei a saber que, afinal, é “preocupantíssima” a situação que se vive em Portugal, país que apresenta o nível de mortalidade mais elevado de toda a União Europeia. Segundo este laureado cientista, enquanto nos restantes estados europeus a mortalidade se reduziu, no nosso país, a mortalidade subiu 16 a 17 por cento nos cancros do homem e 2 a 3 por cento nos das mulheres. Para explicar tão aterradora situação, o distinto investigador apontava, como motivos determinantes, a inexistência de um diagnóstico precoce e a desigualdade na qualidade dos tratamentos, agravados pela falta de educação para a saúde de grande parte da população.´

Num quadro tão assustador, o remédio, afirma o insigne entrevistado, é apostar na educação das pessoas para os sintomas precoces do cancro, na garantia do acesso dos doentes aos centros de saúde e na sua rápida drenagem para os hospitais espe-cializados. E diz mais: é imprescindível actuar ao nível da prevenção, por forma a alterar alguns hábitos de alimentação e de tipo de vida.

Perante tudo isto – que não passa necessariamente por mais dinheiro -, o cientista conclui que «é criminoso não educar os portugueses para que vão cedo ao médico».

Reflectindo sobre palavras tão avisadas como estas, temos de convir que todos nós, portugueses, somos responsáveis pelo “crime” de que falou Sobrinho Simões. E isto porque, desde os tempos do liberalismo, o Estado deixou de se identificar com o Soberano: o Estado somos todos nós, cidadãos eleitores, de cujo voto dependem o Governo e a Assembleia da República. Por conseguinte, se é verdade que às elites governantes cabe a responsabilidade política da condução dos destinos da Nação, não é menos certo que a cada cidadão cabe uma quota parte de responsabilidade cívica pelas escolhas dos seus representantes e pelo grau de exigência que destes souberem reclamar.

Julgo, por isso, que tão ou mais importante que o donativo que, nos próximos dias, iremos dar para a LPCC, é o contributo que, através do voto e da nossa empenhada participação activa na política, somos chamados a dar em prol do desenvolvimento do país. Só assim deixaremos de ser coniventes com a falada omissão criminosa do Estado Português e teremos legitimidade cívica e moral para julgar os culpados.




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