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O silêncio é de oiro

Osilêncio é de oiro». Não sei dizer a quem se atribui esta expressão. Que ela é habitual entre nós, eis um facto indesmentível. Como dito popular, constitui uma fonte de sabedoria e de declarada prudência no uso da língua. Que devia ser tomada a sério pelos portugueses, parece não levantar quaisquer dúvidas, habituados como estamos a que todos opinem sobre tudo, como se isso constituísse uma espécie de obrigação moral do cidadão português.

N/D
14 Out 2003

E, no entanto, como seria bastante mais pacífica a nossa sociedade, em todos os quadrantes, se houvesse por parte de cada um de nós uma maior parcimónia no uso dos pareceres que emitimos, nomeadamente quando a fundamentação que podemos dar sobre o tema versado se encontra ao nível do “cheira-me”.
Este grau de rigor constitui, para o mundo lusitano, uma razão suficiente para expender teorias sobre o que quer que seja. Dele retiramos e nele se enxertam muitas das nossas conclusões, das nossas certezas e da defesa dos nossos direitos. Só talvez tenhamos um pouco mais de circunspecção, quando se trata de falar dos nossos deveres, que surgem no horizonte como assunto muito reservado e bom para não se esmiuçar muito…

O pior é que o olfacto sapiencial nunca foi critério objectivo capaz de resistir a uma verificação mais consistente dos dados das questões, pelo que, com muita frequência, somos forçados a fazer piruetas demonstrativas para afirmarmos que, no fundo, e apesar das aparências em contrário, sempre tínhamos razão; ou então, mais modestamente, que nos enganámos por não possuirmos todos os dados do problema, na altura em que expressámos as nossas ideias sobre ele.

E assim vivemos e assim nos vamos entendendo mais ou menos pacificamente entre uns e outros, apelando para “os brandos costumes” como tábua de salvação da convivência pacífica, ou, em termos um pouco superados pela história recente, da “coexistência pacífica” a que estamos condenados, sempre que o teor do que se afirma fere os outros ou nos fere a nós mesmos.

Se houvesse um tribunal ou uma instituição que julgasse a quantidade de palavras que se dizem sem grande consistência e senso comum em Portugal, e se o rol das excedentes pudesse ser transformado em euros, a crise económica que atravessamos seria largamente superada…

Falamos, pois, em excesso. Não somos nem discretos nem prudentes. Daí que não devamos estranhar que as figuras públicas mais de moda sejam com frequência criticadas por falarem demasiado. Ou, também cabe a hipótese, quando estão caladas, por falarem de menos. Sentimo-nos na obrigação de, num e noutro caso, discorrermos sobre elas, emitindo generosamente o nosso juízo, como se ele fosse absolutamente necessário para a justa avaliação e, talvez até, solução do excesso ou da escassez de palavras que notámos. Deste modo, colocamos a figura pública, em todas as circunstâncias, sob o alvo do nosso julgamento. A ela aplicamos, talvez inconscientemente, o acerto do ditado: «preso por ter cão e preso por não ter».

Digamos de passagem que esta característica de extroversão vocabular faz parte de nós como realidade tão arreigada, que talvez nem a consciencializemos no dia a dia que nos cabe. Há pouco, por exemplo, caiu uma boa parte da comunicação social em cima do Senhor Procurador Geral da República, porque acedeu deixar a um jornalista algumas palavras, respeitosas mas críticas, a respeito da recente libertação de um dos nossos políticos. Logo uma outra colega dos “media” entrevistou um dos juízes que deu parecer favorável à libertação do referido personagem, que não se coibiu de fazer críticas ao procedimento do Senhor Procurador Geral, considerando que ele, efectivamente, falava demais. E o senhor magistrado não fez o mesmo, ao criticá-lo e ao deixar-se entrevistar?

Concluindo: falamos demais. Porventura até o autor destas linhas ao trazer à colação estes assuntos. Calemo-nos, portanto, de forma cordata e vivamos à letra o ditado com que iniciámos este artigo: «O silêncio é de oiro»…




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