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Alunos – clientes no superior?

Não vão longe os tempos em que as escolas do ensino superior, universidades, escolas ou institutos superiores estavam cheios como um ovo. Hoje somos surpreendidos com anúncios de escolas que se contentam em ter, 70 ou 80% dos cursos preenchidos. Num curto espaço de tempo tudo se virou do avesso. Alguns cursos ficaram a zero, outros tiveram de ser extintos. Também muitos deles pouco mais valiam que isto.

N/D
13 Out 2003

Sabia-se, por estudos realizados, que este tempo haveria de chegar, bastava olhar com algum cuidado para a diminuição de frequência do 1.º ciclo, cada vez mais reduzida, cada vez mais confinada ao litoral e grandes centros urbanos. As escolas dos outros ciclos, e a secundária também, estão a pagar o preço da diminuição demo-gráfica; agora chegou a vez do superior. Acresce a isto o pouco interesse suscitado pelo canudo uma vez que é, como dizem todos, estar a estudar para o desemprego. É verdade que o mundo do trabalho procura e emprega muito mais depressa um carpinteiro, um pedreiro ou uma cozinheira do que um professor, um psicólogo ou um sociólogo, ou até mesmo um engenheiro ou um arquitecto. A explicação encontra-se no famoso binómio oferta/emprego e isto leva-nos a concluir que existe oferta a mais nos “doutores” e pouca na dos empregados de actividades manuais. Não é preciso pensar duas vezes sobre isto porque a evidência é tão marcante que não necessita de quaisquer demonstração. A educação de massas, que criou uma sociedade de licenciados/desempregados, ainda não encontrou nenhuma fórmula mágica para responder ao problema que ela mesmo criou. Os bons ventos, afinal, trouxeram terríveis tempestades. Também é igualmente verdade que eles, pais e alunos, não estão inocentes neste contexto inflacionário, porque sabiam muito bem aquilo que os esperava quanto ao emprego dos licenciados. Aqui não há traição de ninguém apenas há a ilusão de muitos. Mas é igualmente verdade que estudos teóricos durante 12 anos, não deixam espaço para a experimentação de práticas profissionais. Existe um ensino profissional precisamente para aqueles alunos que, querendo ingressar mais cedo no mundo do trabalho, tivessem adquirido as respectivas competências.
Mas estas escolas têm servido essencialmente como acesso ao ensino superior. Mas ingressar na vida activa com que estatuto? Será que um aluno destes sujeita-se a entrar para a empresa como aprendiz, ou, porque já tem um certo saber, puxa pelos seus galões e exige mais categoria e obviamente mais ordenado? E quem emprega um empertigado destes? Uma coisa é certa: o ensino superior está num desempenho pouco gratificante. Julgo mesmo que muitos professores já sofrem do síndroma da inutilidade. Não estaremos longe dos tempos em que tenhamos de encarar os alunos do superior como clientes, sem alunos não há professores. Então a relação professor/aluno será substituída pela relação professor/cliente. As escolas superiores vão ter de se habituar a “clientelar” os futuros alunos para os seus cursos, usando as técnicas do marketing e as da divulgação. Não há como fugir a este futuro. Os tempos que aí estão já não são o tempo de pedestal, nem sequer o do mandarinato do Professor. Quem não sabe ler os sinais dos tempos em que vive acaba na “guilhotina”.




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