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Comunicação Social independente

Em pouco tempo, duas reportagens televisivas fizeram rolar cabeças: a utilização considerada indevida do helicóptero dos bombeiros de Lamego e a entrada na universidade, tida como ilegal, de uma filha de um dos nossos governantes.

N/D
9 Out 2003

No caso de haver, de facto, irregularidades, a Comunicação Social devia ou não ter denunciado aquelas situações?
Em minha opinião devia. E só é pena que não denuncie muitas mais, se as houver.

Uma das missões dos Meios de Comunicação Social é o exercício do quarto poder, que se concretiza na denúncia, sempre que os haja, de abusos do poder, de ilegalidades, de fraudes, de atitudes lesivas do bem comum.

Alguém disse, há muito tempo, que o jornalista deve ser a boca do povo e a orelha do príncipe.
Servidor do bem comum, compete-lhe ser a voz dos sem voz, na esperança de que os problemas que levanta sejam de facto escutados por quem tem o poder de os resolver.

Para se desempenharem desta missão os Meios de Comunicação Social devem ser independentes. Não apenas do poder político mas de todos os poderes.

É que, se está comprometida com o governo, é muito possível que se sinta tentada a exagerar-lhe as virtudes e a calar-lhe os defeitos e a referir, com ou sem fundamento, a ineficácia da oposição. Se o compromisso é com a oposição, então as tentações podem resultar no contrário: exagerar os defeitos do governo, calar-se relativamente às virtudes, salientar as virtualidades da oposição e apresentá-la como única alternativa credível.

Uma comunicação social comprometida com o poder autárquico, por exemplo, pode, se for caso disso, ser tentada a não dar notícia de que o terreno que um proprietário não pôde lotear pôde ser loteado por quem o comprou; pode, se for caso disso, ser tentada a não noticiar que, enquanto um proprietário não pôde lotear um terreno o pôde fazer o proprietário de um terreno vizinho; pode, se for caso disso, ser tentada a não denunciar que onde uns só podiam construir até três andares outros puderam construir até cinco. Pode, se for caso disso, ser tentada a não denunciar que para se obter determinada licença se teve de dar determinada contrapartida. Pode, se for caso disso, ser tentada a não falar da disparidade de critérios, da desigualdade dos cidadão perante a lei, do compadrio, da corrupção, do clientelismo, da má gestão de dinheiros públicos, da falta de transparência em negócios e contratos, da nebulosidade de certos concursos, etc. etc.

A uma comunicação social dependente do poder económico pode não convir, se for caso disso, falar dos vícios do consumismo, dizer que determinada empresa recorre ao trabalho infantil, ou tem trabalhadores por inscrever na segurança social, ou abusa da necessidade de imigrantes indocumentados, ou não se preocupa com a higiene e a segurança no trabalho, etc. etc.

Uma comunicação social comprometida ideologicamente pode sentir-se tentada a elogiar a sua dama e a omitir o que a possa desprestigiar.

Uma comunicação social não dependente das audiências nem das tiragens não se limita ao dever de informar mas também procura formar. Denuncia a crise da autoridade, as manifestações de egoísmo, os atropelos ao respeito que é devido a toda e a cada pessoa na sua dignidade e nos seus direitos, as manifestações de violência e os incitamentos à mesma, o sexo sem regras nem princípios, a indisciplina, a sem-razão de certas manifestações e protestos, a forma como muitas pessoas são manipuladas, a excessiva politização das escolas, o disparate das uniões homossexuais, o facilitismo, os erros da vida nocturna, a ausência de valores, a campanha de destruição da família, a desvalorização da vida humana, etc. etc. Uma comunicação social dependente das audiências e das tiragens pode ceder à tentação de sacrificar a qualidade ao popularucho, de privilegiar o sensacionalismo, de calar verdades incómodas…

O pior que se pode dizer de qualquer meio de comunicação social é que se preocupa em ser a voz do dono, porque isso pode significar que só tem em conta as exigências do bem comum sempre que estas coincidem com os interesses de quem nele manda.

A existência de uma comunicação social verdadeiramente livre e independente, que esteja de facto ao serviço do bem comum, que se preocupe com a promoção de todo o homem e do homem todo e com a defesa dos mais débeis é um bem para qualquer comunidade e merece que se lhe criem condições dignas de vida.




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