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Rodeios

Na última vez que fui à França, tive a oportunidade de conhecer e conversar com um ilustre capitular da Igreja de Clermont-Ferrand, denominado cónego Arthand.

N/D
6 Out 2003

Era uma pessoa superiormente dotada e, ao mesmo tempo, revestido duma impressionante modéstia, quer no falar, quer no proceder.
Recordo que, no bate-papo, a propósito do temperamento do homem português, aquele ilustre capitular teve esta expressão, que jamais esquecerei: – o português é um homem honesto e trabalhador, mas… muito complicado.

E, para melhor explanar a sua opinião a nosso respeito, dizia aquela culta personalidade que aos portugueses é preciso explicar as coisas duas vezes, pois uma só não chega.

E tudo isto – acrescentava o senhor – não por falta de compreensão, mas por feitio e temperamento.

Ao ouvir tal afirmação, tive de imediato uma tentativa de repulsa; mas, depois, pensando bem, aceitei a ideia do meu interlocutor.

Realmente, basta recordar a burocracia reinante em toda a vida social portuguesa e trazer à memória os rodeios que empregamos, seja na oralidade, seja na escrita, ao explicar a coisa mais simples e banal deste mundo, para logo reconhecermos que a apreciação daquele ilustre capitular tem toda a razão de ser.

Aliás, a afirmação proferida deve ser produto duma análise feita ao comportamento do nosso emigrante.

Sucede, até, que são tantos os rodeios que utilizamos para narrar qualquer acontecimento, ora com atributos classificativos do sujeito, mais a denegrir que a enaltecer, ora com complementos circunstanciais da mais diversa índole, envolvendo volteios e marginalidades de toda a ordem que, não poucas vezes, perdemos o fio à meada da história a contar.

Não é virgem, nem original, a apreciação referida.

Antes desta personalidade, já muitos dos nossos melhores literatos, sobretudo os que singraram na escola lírica, tinham descoberto esta característica do povo português.

Julgo até que a aproveitaram como uma espécie de ornamento literário de incontroverso valor, para embelezar os textos que tão bem souberam redigir e apresentar à curiosidade do público.

Realmente é fácil notar, na teia discursiva, aliás bem descrita, que Júlio Dinis coloca na boca das figuras populares dos seus romances, que há um enredo de ro-deios e de achegas, que ilustram textualmente as páginas de cada exemplar.

O mesmo se poderá dizer de Eça de Queirós e de outros escritores portugueses do século XIX.

Analise-se, com profundeza e minúcia, o cenário daquele jantar de arroz de favas, comido em Tormes, cuja descrição Eça de Queirós interpreta da boca de um popular da região e chegaremos à idêntica conclusão.

Mas, esta particularidade de dispersão analítica do povo português não se fica apenas na oralidade popular.

Estende-se, também, à vida concreta de todos os dias.

O português perde-se nos rodeios e nunca vai direito ao assunto.

Vejamos o que se passou, ultimamente, com os dois acontecimentos que dominaram a vida portuguesa: os fogos florestais e a queda da ponte, no IC 19, em Sintra.

Após breve reflexão, notaremos que houve preocupação com os meandros e as circunstâncias marginais dos acontecimentos e deixou-se à deriva o essencial da questão, que era a captura dos ateadores dos incêndios e a punição dos verdadeiros culpados pelo abatimento da ponte.




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