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Os contrastes

Fica a gente de boca aberta ao ver o que se passou em Coimbra com o concerto dos Rolling Stones, não pela longevidade das pessoas em palco, ou pela validade dos seus sons, mas pela imensa multidão que ali ocorreu. Explicações serão várias para tal mas o que nos impressiona sobremaneira é como num país em crise, com notícias diárias de falências e desemprego, com famílias no limiar da miséria, um país em cinzas, ainda há quem tenha vontade para festas e folguedos e disponha de dezenas ou centenas de euros para uma coisa destas! Num país onde os estudantes dizem ter de viver acampados por não terem disponibilidade para pagar o arrendamento do quarto por causa da carestia das propinas!

N/D
6 Out 2003

E, no entanto, se as televisões nos não enganaram, eram estudantes os entrevistados que foram depois do concerto para os bares e discotecas da cidade do Mondego, esgotando todas as lotações! E isto custa dinheiro, muito do que faz falta para as propinas, senhores estudantes. Isto para não falarmos nos vossos automóveis que envergonham, pela gama, os dos vossos professores, nos parques universitários. Nada a opor se não tivéssemos ao lado disto um rol de lamentos generalizados. Têm dinheiro para tudo menos para a universidade que frequentam, não é verdade?Como é isto? Onde está a tão apregoada generosidade da juventude, nestas atitudes tão díspares?
Sempre houve contestação estudantil; é uma maneira das Associações dizerem que existem, mas, meus senhores, haja um bocado de pudor e respeito pelos outros estudantes, por exemplo pelos do 1.° Ciclo onde ainda há escolas sem aquecimento nos meses de rigorosos Invernos. A propósito forneçam-lhes aquecimento e refeições diárias e só depois lhe enviem os computadores. Ainda a propósito, sabem que a mensalidade de um infantário é maior que a das vossas propinas? Mas também aqui fica uma chamada de atenção aos que lá foram sem ser estudantes: alguns, pareciam, pelo aspecto e pelas palavras, não pertencerem a um grupo económico muito abonado e, no entanto, lá estavam despejando a bolsa que, para pagar os devidos impostos ao Estado, dizem estar magra e seca como tuberculoso em situação terminal. Pelos vistos há dinheiro de sobra nos bolsos dos pais e dos filhos que gritam “não pagamos”. Se isto fosse uma realidade sustentada, nada mais nos encheria a alma de satisfação porque seria a expressão de um país que aguenta sem medo gastos supérfluos, porque tínhamos um país rico, porque sabíamos criar riqueza, porque fomentávamos a cultura, porque tínhamos posses para ver entre nós os monstros e os mitos estrangeiros. Mas não é assim, infelizmente, e o que provoca o mal-estar que sentimos é o contraste evidente, e agora vivido em Coimbra, entre um povo que ri, canta e dança e outro que chora, lamenta e aguenta. Como me lembro daquele menino rico que, ao receber para a merenda o seu companheiro de escola, não vestiu o seu fato novo para não humilhar o amigo que vestia roupa pobre. Toda a sensibilidade do sujeito se resume nestas harmonias de ser e nesta delicadeza de sentimentos. Esta alma pode ver-se ao espelho. Este menino não se construiu a si mesmo. Foi alguém que permitiu, neste caso muito concreto, que este menino sacudisse a tutela exercida pela vaidade e se tornasse fiel ao discurso da solidariedade. Elegância dos gestos e pouco mais, coisas simbólicas que não resolvem a pobreza, diriam alguns. Para nós a educação sem estas carícias terá um destino de oficina onde apenas se malha o ferro frio, porque também esta, sem nada resolver, tudo deixa em bruto e informe.




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