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O ministro e a miúda

Conheço um tipo que detesta a maldade e o comportamento daqueles que, de forma decidida, friamente planeada, estudam armadilhas, atacam, aguardam o momento da vingança. Mas detesta igualmente os que se armam em puros, intocáveis, que se julgam melhores que os outros, com as receitas e normas para os outros seguirem, os iluminados de qualquer ramo ou espécie. Detesta, por fim, as meias tintas, o que não é carne nem peixe, o reino das aparências e das fachadas. Por isso, convive mal consigo mesmo: feito da massa mais humana e comum que pode haver, vive inquieto, sempre à procura, mas também incomodado por se refugiar, tantas vezes, nas incessantes coisas que há para fazer, para não se emaranhar nas suas inquietudes e congeminações.

N/D
6 Out 2003

É um tipo com quem gosto de conversar.
Comentava ele, há dias, a bronca da “cunha” (ou que passou por tal) do ministro ao seu colega de governo. Falávamos do que se tem dito e escrito. A dada altura diz ele:

“Já pensaste na miúda?”

“Qual miúda?”, inquiri.

“Naquela que está na origem desta história”.

E como eu aludisse ao facto de ela ser maior e estar certamente bem amparada, ele contrapõs:

“Mas não deixa de ser uma miúda que, às tantas, nem acha graça nenhuma ter-se tornado o motivo da bagunça que se criou, ver-se de repetente lançada para o palco, por causa do papá que tem”.

E, numa indirecta a alguns dos terrenos em que me movo, acrescenta:

“Depois de a SIC ter disparado o canhão, só falta agora a TVI ir filmar os despojos e apanhar a miúda à saída de casa e disparar o inevitável «como te sentes?»”.

A conversa foi divagando, entre Lynce, Durão e Martins da Cruz. O meu amigo tendia a relativizar a história em si mesma, argumentando que vivemos no país da cunha.

E rematou:

“O que me dana mais não é que tenham arranjado a resolver o problema à miúda. O triste deste episódio é que uma das bandeiras do ex-ministro e do governo foi precisamente pôr cobro a processos ínvios de entrar na Universidade. E logo em Medicina!”.

“Não é necessário olho de lince para ver certas coisas” – matutava eu, de regresso a casa.

Provavelmente a questão está em que, em certos lugares e em certas “culturas”, até os olhos comuns se toldam, impedindo de ver o que é evidente.




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