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O ranking ataca de novo

Uma vez mais, diversos meios de comunicação social divulgaram os rankings de estabelecimentos de ensino portugueses. Os números serviram para encher alguns suplementos, que, no entanto, não proporcionaram aos leitores um adequado conhecimento do estado do saber nas nossas escolas. Na sua crónica de ontem no “Público”, Augusto Santos Silva mostrava como a ordenação estabelecida não permitia dizer quais são as melhores escolas secundárias da nação.

N/D
5 Out 2003

Se é possível fazer uma caricatura, pode-se dizer que os rankings permitem colocar um estabelecimento de ensino em que foi examinado um único aluno, classificado com 18 valores, à frente de outro em que 300 alunos tivessem tirado 17 valores.
Passando por cima dos efeitos perversos deste único critério, será legítimo dizer que a escola que teve uma média final de 18, obtida por um único aluno, é melhor do que a que teve uma média final de 17, correspondente ao resultado de 300 alunos?

No texto referido, Augusto Santos Silva mostrou como a adopção de diferentes critérios de tratamento dos resultados se traduzem em distintas ordenações das escolas.

Basta citar um exemplo para se perceber a falibilidade destes resultados: a escola que o “Público” colocou em quinto lugar aparecia em terceiro lugar na lista do “Expresso” e em primeiro na do “Diário de Notícias”.

E quem se der ao trabalho de comparar os resultados que dizem respeito ao distrito de Braga poderá verificar que há estabelecimentos de ensino que podem estar incluídos no top cem estabelecido por um jornal e estar excluídos no que um outro fez.

As diferenças de posicionamento das escolas do distrito nas diversas listas também são esclarecedoras. Entre a do “Diário de Notícias” e a do “Público”, um estabelecimento de ensino dista 8 posições; outro, 16; e um terceiro, 21.

Num dossier que, na edição de 15 de Setembro, dedicou à “moda absurda das classificações”, a revista “Marianne” recordou que “há, todos os anos, pais angustiados que se fiam nos hit-parades dos estabelecimentos escolares para inscrever os filhos. Mas atenção: os mais bem classificados não são necessariamente os melhores”. “Nós não somos contra a transparência e aceitamos que nos peçam resultados. Mas é necessário fazê-lo inteligentemente”, observou um professor que, de algum modo, sintetiza outras opiniões recolhidas.

Nas escolas, é preciso mais pedagogia e menos economia, defendeu outro entrevistado. Para os especialistas da revista “Le Monde de l’éducation”, citados pela “Marianne”, os critérios quantitativos utilizados nas classificações fazem supor que o sucesso escolar, uma noção eminentemente complexa, se resume à obtenção de um diploma.

O diário espanhol “El Mundo” também avalia periodicamente os melhores estabelecimentos de ensino privados de Espanha. O trabalho – um suplemento incluído na edição do dia 8 de Abril – assenta em 23 critérios que é interessante conhecer. Os diferentes critérios permitem apreciar o modelo de ensino, a oferta educativa e os meios materiais de cada um dos estabelecimentos de ensino. O jornal indica também o número máximo de pontos atribuídos a cada item.

O “modelo de ensino” é apreciado tendo em conta, por exemplo, o “reconhecimento externo” (“um bom indicador do prestígio e do nível do estabelecimento de ensino são os prémios e menções atribuídos por diferentes organismos tanto para os alunos a título pessoal como para o estabelecimento de ensino”), o “estilo de ensino” (“é importante ter em conta que técnicas são empregues para desenvolver a aprendizagem do aluno.

É importante perceber se é utilizada, de um modo geral, uma fórmula memorística, raciocinadora, compreensiva, experimental ou se as diversas fórmulas são misturadas e como se aplicam nas aulas”) ou a “avaliação do aluno” (“embora as classificações sejam o indicador comum do rendimento escolar, é pedido ao estabelecimento de ensino que diga se outros elementos servem para a avaliação e qual a importância que têm”). Os diversos critérios que compõem este item podem somar um máximo de 41 pontos.

A “oferta educativa” é avaliada de acordo com oito critérios, nomeadamente a qualificação dos docentes, a quantidade de professores de apoio, o leque de ofertas de idiomas, de oficinas ou de actividades extra-escolares. Este item pode ter um máximo de 32 pontos.

Para avaliar os “meios materiais”, que podem totalizar 27 pontos, são considerados, entre outros critérios, o número de alunos por aula (“um número superior a 20 alunos impede o acompanhamento das necessidades de cada um e dificulta a dinâmica do curso”), o número de alunos por professor (“uma boa proporção assegura um melhor trabalho específico e individualizado com os estudantes”), o número de metros quadrados da sala de aula, o material informático à disposição do aluno e as respectivas condições de acesso, o refeitório (“consideram-se diferentes critérios como o preço, o número de lugares ou a possibilidade de levar comida de casa”), os laboratórios e as instalações desportivas.

Que a educação é mais do que uma classificação no final do ano lectivo todos (ou quase todos) o sabem. No entanto, nem sempre se procede como se isso assim fosse.




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