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O poder dos reis e o poder das repúblicas

Portugal foi governado por reis durante mais de sete séculos. Primeiro teve uma monarquia hereditária com os poderes limitados pelas cortes. O rei detinha o poder porque pertencia à nobreza! Mas D. João II deixa de reunir as cortes e centraliza em si o poder que passa a ser ilimitado, tornando-se um rei absoluto! Mas é só em 1697, no reinado de D. Pedro II, que as cortes são abolidas para dar lugar a uma monarquia absoluta, ficando o rei com poderes ilimitados de origem divina! E é este sistema duro de monarquia que vai ser imposto até ao Liberalismo no século XIX

N/D
3 Out 2003

E foram, na verdade, as Invasões Francesas que trouxeram consigo os ideais do Liberalismo, ou seja, que a soberania residia no povo. O rei manda e o povo governa! E são as lutas liberais que vão enfraquecendo o poder da monarquia até ao assassínio do Rei D. Carlos e do Príncipe herdeiro D. Luís Filipe, no dia 1 de Fevereiro de 1908! D. Carlos havia hostilizado o Liberalismo, tentando levianamente governar através do ditador João Franco! E isso custou-lhe a vida! E a do seu filho! Apesar de franco-atirador errou o alvo, acabando por ser atingido de ricochete. O reinado que se seguiu de D. Manuel II foi efémero!

Às 11 horas da manhã do dia 5 de Outubro de 1910 foi proclamada a República de Portugal na Sala Nobre dos Paços do Município de Lisboa. E assim acaba a monarquia constitucional! E o órgão de soberania principal do novo sistema político passa a ser o Congresso da República, constituído pelo Senado e pela Câmara dos Deputados, cujos membros são eleitos através de sufrágio universal e directo. E o rei dá lugar ao Presidente da República, a eleger pelo Congresso, que também o pode destituir! Daí a fragilidade da nova República Parlamentar que vai gerar tal instabilidade que os governos se sucedem vertiginosamente uns aos outros. Agridem-se os sentimentos religiosos dos católicos! Assiste-se à renovação das leis de Pombal e Aguiar! E é o próprio Afonso Costa, autor desta reforma legislativa, quem, personificando o Marquês do Pombal, persegue os membros do clero, como se fossem os pobres Távoras dessa época! Até os bens da Igreja são arrolados uns e confiscados outros!

E assim a jovem República, de crises sucessivas, em cima umas das outras, vai-se penosamente arrastando até à derrocada final que tem lugar a 28 de Maio de 1926. É o apagão que vai durar até ao glorioso 25 de Abril. Só a partir desta data se acenderam novamente as Luzes do Iluminismo do século XVIII.

A Monarquia não resistiu aos novos ventos. E foi pena que não tivesse vingado uma outra solução que prestigiasse o sistema de monarquia constitucional à semelhança do Reino Unido. E assim se teria evitado o período de atraso da primeira República, a ditadura salazarista de mais de 40 anos, que surgiu na sequência de crassos erros anteriormente cometidos, e as tentativas, felizmente em vão, de uma nova ditadura no período turbulento do 25 de Abril de 1974, mas agora do proletariado. Pense-se onde economicamente estaria hoje Portugal se o Rei D. Carlos tivesse conseguido impor um regime prestigiante que, através dos seus sucessores, chegasse aos nossos dias. Mas a Espanha cometeu os mesmos erros! Os novos tempos de mudança sopravam de todos os quadrantes. Como seria hoje a Península Ibérica, sob a autoridade de duas coroas! Mais prestigiada e mais fraterna, a olhar sobranceiramente para o resto da Europa. Foram muitas décadas a andar para trás.

E com a defesa dos valores monárquicos, até presto homenagem ao avô materno de minha mulher, monarca ferrenho, acérrimo resistente da Monarquia do Norte, na luta contra a primeira República.
Chegou mesmo a sacar a Bandeira verde-rubra, a desfraldar já na Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto e a içar, em sua vez, a Bandeira azul e branca!

Perseguido pelos republicanos, refugiou-se debaixo de uma ponte com água a dar pelo umbigo, mas acabou por ser preso. Consegue evadir-se da prisão e dar logo um pulo para Espanha. De lá, para o Brasil. Novamente para Tuy. Em 1926, os remorsos de António de Oliveira Salazar jogam a favor da entrada no País de todos os exilados políticos que haviam lutado contra a jovem república.

E o Padre Domingos, o cabecilha da resistência local da Monarquia do Norte, em 1912, foi considerado, pelos republicanos, um agitador minhoto, um fanático sacerdote que andaria pelas ravinas minhotas a pregar a guerra santa de arcabuz ao ombro e crucifixo em punho!

De costas voltadas para o exercício do sacerdócio há já muitos anos, velho, cansado e doente, sentado na soleira da porta da entrada de sua casa, no lugar da Raposeira, da freguesia de Refojos, quantas vezes deve ter ferrado os dentes de raiva por não poder correr atrás de minha mulher que, no regresso das aulas, não se cansava de lhe fugir com a bengala! «E logo a neta do seu melhor amigo e companheiro das lides monárquicas contra a 1.ª República!», desabafa.

Morreu aos 86 anos, no Hospital de São Marcos de Braga, reconciliado com a Igreja, depois de publicamente ter pedido perdão aos fiéis. Foi o carismático enfermeiro da 6 (o meu amigo Ferreira que, nas vésperas de completar a linda idade de 90 anos, está a passar um mau bocado de fim de vida) lhe fechou os olhos. Teve missa de corpo presente na igreja da sua freguesia, em Refojos, onde serviu devotadamente grande parte da sua vida. Foi sepultado paramentado! Ainda hoje é com emoção que essa neta recorda ainda aquele dia longínquo em que, ao colo do avô, ouviu da boca do sacerdote guerreiro esta grande máxima que fez história: «Há inferno, há Manuel! E eu até no meio do inferno hei-de ser Padre».

Na verdade, muita coisa havia ainda a dizer da monarquia portuguesa! Pela galeria da história desfilaram, desde a independência, reis que foram heróis e reis que foram cobardes! Uns, quais machos ibéricos, deixaram mais filhos bastardos que filhos do casamento! Mas outros houve que, por serem impotentes, até criaram problemas de sucessão! Ambiciosos quase todos! Reis mártires alguns. Mas todos tementes a Deus.

Tarde sim, mas estamos, e só agora, no caminho certo.




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