Fotografia:
Fausto e Gal, Betânia e Nuno da Câmara

1Dois casos de convergência luso-brasileira

N/D
30 Set 2003

Queria eu, neste artigo, abordar dois casos distintos de curiosa convergência recente, entre dois pares de artistas, brasileiros e portugueses. A primeira convergência é supostamente de origem familiar e une Gal Costa a Fausto. A segunda convergência é de ordem filosófico-religiosa e aproxima Maria Betânia de Nuno da Câmara Pereira. É quase um exemplo do “retorno de dois filhos pródigos”, neste último caso.

2. Entre Fausto e Gal Costa

Fiquei a saber, depois de uma entrevista que Gal Costa deu, quando esteve em Portugal vai para dois ou três anos, que ela tinha algumas raízes familiares no distrito da Guarda, não longe de Trancoso.
Um dos apelidos da sua família é Bordalo, que terá eventualmente origem numa alcunha (tal como no caso dos artistas lisboetas Rafael e Columbano Bordalo Pinheiro). “Bordalo” é um peixe de água doce; e algum antepassado português da artista recebeu essa alcunha, ou por pescar muitos bordalos, ou por vender muitos, ou, mais provavelmente, por virtude do seu “facies” se assemelhar àquele pequeno animal escamoso. Na terceira hipótese o caso é semelhante a outro, bem recente, ocorrido em Lisboa com um político de origem meia plutónica, meia transmontana, a quem a excitada consorte (que tem ela própria nome de saborosa fruta comestível) se lembrou de alcunhar de “cherne”, no calor duma disputadíssima e inesperada vitória eleitoral.

Pois se Gal Costa pertence aos Bordalos da região de Trancoso, o cantor Fausto será provavelmente seu parente afastado. E possivelmente nenhum dos dois sabia disso. É que o nome do artista português é Fausto Bordalo Dias… E ainda por cima, é da mesma região de Trancoso, salvo erro da freguesia de Vila Franca das Naves. E se o parentesco for, como parece, efectivo, muito me alegro por ser eu o arauto dessa curiosa boa nova. A da hipotética consaguinidade entre a dona dessa feminina voz brasílica, cujo timbre foi um dos que mais marcaram o último quartel do século XX lusófono; e do introspectivo, reservado, distante e insondável romântico de esquerda-radical, que já habituou os portugueses a de dez em dez anos, qual cometa de órbita elíptica, aparecer e brindar o público com uma obra-prima no campo da música ligeira. Pois que se encontrem e festejem.

3. Entre Maria Betânia e Nuno da Câmara Pereira

Natural de Santo Amaro da Purificação, vila situada nesse paradisíaco golfo que é o Recôncavo baiano, Maria Betânia (irmã de Caetano Veloso) não será decerto a mais bela das brasileiras. Contudo, senhores, a sua voz é de uma beleza singular; para mim, só comparável a Nana Caymi, Roberta Miranda, Fafá de Belém, Nara Leão ou Elis Regina. Melhor que a própria Gal ou que Simone Betencourt de Oliveira.

Pois é sabido que Betânia andou desde sempre associada aos “candomblés”, àqueles cultos meio-pagãos de origem africana que infelizmente proliferam em alguns lugares das Antilhas e do Nordeste brasileiro, regiões onde a fixação de escravos negros foi demograficamente maioritária. Por anos Betânia venerou Ogum e Oxum e Iemanjá. Nisto aliás se assemelhava Betânia a esse homem de inteligência superior, a esse mulato outrora adepto do racismo negro, a esse notável intelectual e artista que hoje é ministro no Brasil e que responde ao germânico (e helénico) nome de Gilberto Gil.

Pois Betânia retornou agora ao Cristianismo Católico e editou há meses um “compact disc” com músicas e canções religiosas, da tradição católica baiana. É um CD de excelente qualidade.

Paralelamente ao regresso de Betânia, temos o caso do conhecido fadista Nuno da Câmara Pereira, primo de frei Hermano e filho do grande D. Vicente da Câmara, que foi seguramente um dos nossos maiores fadistas de sempre (a par de Carlos Ramos, de Rodrigo e de Manuel de Almeida). Como se não bastasse o boato antigo de que este ainda jovem cantor tivesse contactos com a Maçonaria, fez o distraído Nuno há meia-dúzia de anos atrás uma muito fotografada visita a Marrocos, terra dos nossos sempre leais, desprendidos e amabilíssimos vizinhos, viagem da qual Nuno regressou dizendo maravilhas. Claro que isto não é o que as classes conservadoras ou reaccionárias da lusa grei esperam das inclinações dum aristocrata portucalense, ainda por cima, fadista. Daí que a boa fama deste Câmara tenha por vários anos declinado alguma coisa.

Mas parece que recentemente Nuno (qual Maria Betânia…) começou a demonstrar a sua contrição. Pelo menos para alguns, caiu bem que em entrevista televisiva recente, Nuno se tenha declarado adepto de um clube que era azul (no caso, o Belenenses), azul “mas com uma cruz de Cristo ao peito”. E como se as suas intenções anti-draconianas e regeneradoras não quisessem ficar por ali, deu-lhe para atacar Pinto da Costa em pessoa. Referiu que uma vez calhou de almoçar em certo restaurante da Mealhada, onde se encontrava o dirigente portista com alguns amigos. E que se lembrou de amavelmente e através de um empregado lhe mandar oferecer “um cálice de Porto”. A reacção do supremo guia da nortenha agremiação draconiana terá sido abespinhada e pouco polida. Própria, isso sim, de um qualquer “homo delanensis ludicus”, espécie que, como se sabe, é irmã da do “homo delanensis abstemius” (ou “barbatus”). Daí que Nuno afirmasse que, desde então, passou a distinguir entre o clube baixo-duriense (que continuava a respeitar) e o seu presidente (que já não).

E nesta “procura do bom caminho” há um notório paralelismo com a cantora nativa de Santo Amaro da Purificação… Daí a minha segunda comparação.




Notícias relacionadas


Scroll Up