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As “genialidades” dos nossos examinandos…

Provavelmente, já os leitores se não recordam dos seus pontos de exame. Melhor dizendo: do que escreveram quando foram chamados a realizar essas provas complexas. Talvez escritas há muitos anos, esquecidas na nossa memória, que exerce, felizmente, um trabalho selectivo natural, a fim de não nos atulhar com dados que já não nos prestam para nada.

N/D
30 Set 2003

Outra realidade diferente, embora afim, são as cenas que lembramos desses momentos de tensão. Tantas histórias divertidas, embora na altura profundamente nervosas. Por exemplo: as formas de “copianços” engenhosos, como a daqueles célebres alunos de uma das nossas cidades (terá sido Lamego?), que num exame de matemática a nível nacional, foram apanhados a fazer uma transmissão da resolução do enunciado através duma rádio por eles urdida, tendo o examinando um posto emissor-receptor dentro duma ligadura que lhe enfaixava a cabeça “enferma” – creio que até às orelhas. Com ele enviava para o exterior os termos das questões e dos problemas, recebendo depois a resolução por igual meio, certamente realizada por alguém mais perito na matéria… Foi na altura o estratagema propagandeado pelos meios de comunicação social e o país inteiro, salvo algum rigorista mais intransigente em matéria de seriedade laboral, lamentou a pouca sorte do aluno da ligadura por ter sido descoberto…
Evoquemos a conhecida saída de um estudante de uma das nossas faculdades de Direito… O professor da cadeira, antes do início do exame, observou que preferia confiar no sentido da honra de cada um dos examinandos do que ser seu polícia. Em seguida, retirou-se da sala, deixando a turma entregue a si mesma e à redacção da prova… Passados alguns minutos, ouviu-se a seguinte confissão de consciência: «Ai que já estou desonrado!…»

Enfim, ficou também célebre um livro que se editou, pouco depois do 25 de Abril, com as “genialidades” dos nossos alunos, sobretudo em História. Há pouco, via Internet, recebi algumas mais recentes. Devo dizer que não são exclusivas do génio lusitano, pois num país bem mais evoluído do que o nosso em matéria de ensino, houve um aluno que declarava peremptoriamente que «na circulação sanguínea, o sangue desce pela perna esquerda e sobe pela direita», ou vice-versa, não recordo bem. Ou seja: se o género humano não dissesse tantas asneiras nas mais diversas dimensões do saber – ou da ignorância – não seria tão divertido.

Mas vamos às nacionais, mais frescas – garantiam-nos -, pois eram reportadas à última época de exames.

Comecemos por uma descoberta psico-somática muito precisa: «O nervo óptico transmite ideias luminosas ao cérebro». A botânica também tem muito a ver com o sentido da vida: «A principal função da raiz é enterrar-se». É preciso fazer uma distinção objectiva entre os elementos do reino vegetal e do reino animal, pois «as plantas distinguem-se dos animais por só respirarem de noite».
Quanto a estes, parece que até há pouco ainda não haviam sido descortinadas algumas facetas fundamentais de que se revestem. No caso dos irracionais: «Quando um animal irracional não tem água para beber só sobrevive se for empalhado». E a respeito das aves: «[…] têm na boca um dente que se chama bico». E como qualificar esta resposta – talvez revelando a nossa angústia perante a recente guerra no Iraque, país de muito petróleo: «O petróleo apareceu há muitos séculos, numa época em que os peixes se afogavam dentro de água»…

O sol é fulcral para a nossa existência. Mas há diversos aspectos seus que convém realçar e são esquecidos com facilidade: «O sol dá-nos luz, calor e turistas». Somos bastante críticos quanto aos processos lentíssimos de funcionamento do nosso sistema judicial. Não convém, todavia, ser demasiadamente exigentes, porque «antes de ser criada a Justiça, o mundo era injusto». E se não apreciamos com inteira abertura o nosso sistema de saúde pública talvez se deva a esta razão: «A Caixa de Previdência assegura o direito à enfermidade colectiva».

Por fim, a história, que é mestra da vida, traz-nos as seguintes novas concepções. Sobre um facto dramático: «Lavoisier foi guilhotinado por ter inventado o oxigénio». Sobre um tipo de cientistas até hoje completamente ignorado no antigo Egipto: «As múmias tinham um profundo conhecimento de anatomia». E a respeito das primitivas populações da civilização da velha pátria de Abraão: «Os estuários e os deltas foram os primitivos habitantes da Mesopotâmia». Os exemplos poderiam continuar…




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