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A pedagogia aos pedagogos

Neste princípio de ano lectivo toda a gente fala e escreve sobre educação. Com tantos “especialistas na matéria” até parece impossível não estarmos na vanguarda da educação a nível planetário.

N/D
29 Set 2003

As sugestões, as críticas e as hipóteses são sempre apresentadas como milagrosas, quando não como milagreiras ou ovo de Colombo. São tantos os “pedagogos” em Portugal como os treinadores de bancada nos estádios de futebol. Mas em contraste, poucos são os professores que se pronunciam sobre educação, e contam-se pelos dedos aqueles que saem a público para defender uma opinião. E devíamo-nos interrogar porquê? Em contrapartida, surgem como vegetação espontânea os expert das tertúlias de café e reuniões de pais. Por que será que os professores não falam e por que será que os indiferenciados palram tanto? Porque aos primeiros sobram razões de conhecimento e aos outros sobram ignorância bastante para o atrevimento. A educação é uma ciência e tem, por isso, um discurso epistemológico, isto é, um discurso fundamentado na teoria do conhecimento da educação e, porque não é do senso comum, situa-se para além do conhecimento empírico. Pedagogo é «aquele que centraliza dados, recolhe informações e investiga em função da educação em si mesma», diz Dias de Carvalho. Neste domínio há um paralelo entre o desempenho dos médicos e dos professores. Os médicos aplicam os remédios que outros descobriram; os professores aplicam as teorias que os pedagogos investigaram. Não se é professor só porque se sabe a matéria e não se é médico só porque se sabe o nome dos remédios. Isso é do tempo em que ensinar era uma sucessão de rotinas e a medicina se fazia por sintomatologia. Hoje os pedagogos investigam as situações da educação, os professores acreditam em quem investiga e aplicam estas descobertas com confiança.
Por isso o professor de hoje tem que ter uma formação consagrada não apenas à aquisição de saberes e técnicas práticas de utilização imediata, mas à aquisição de um conjunto de reflexões e informações pedagógicas que possam contribuir fundamentos sólidos para uma acção educativa, que é, como se sabe, muito mais abrangente do que aquilo a que abusivamente chamam de sucesso escolar.

Ora por aqui se vê como será extremamente difícil escrever sobre educação ou construir discursos em educação apenas sobre palpites. A educação não é, pois, música que se toque de ouvido. Os que assim procedem deveriam ter a humildade do psicólogo Piaget quando afirmou: «Eu não tenho opinião no campo da pedagogia». Mas há quem sem saber por que a Terra gira, diga que é o sol que nasce todos os dias. Porque julgam pelas aparências, caem no logro do que parece. Uma senhora, numa reunião de pais afirmou, alto e bom som, que uma professora tinha tido, em relação à sua filhinha, «uma atitude antipedagógica»; quando lhe perguntaram o que era pedagogia, não fazia a menor ideia. Se todos falássemos apenas daquilo que sabemos seríamos uma sociedade de mudos, dir-me-ão. Às vezes vale mais o silêncio que esse ruído.




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