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Os trapos de Elisa e a credibilização da política

A questão não é absurda: “estará a política a tal ponto desconsiderada, entre os portugueses, que para se lhe referirem os repórteres se sentem na obrigação de empregar um tom jocoso?”. A preocupação com a reputação da política que a pergunta supõe merece aplauso.

N/D
28 Set 2003

A autora da interrogação tem, aliás, uma particular autoridade para desprezar o tom irónico, de que tem sido vítima. Uma vítima inocente, diga-se. Realmente, o esforço que Maria Elisa Domingues tem feito para dignificar a acção política só lhe tem valido uma quase geral incompreensão.
A sua partida para Londres – onde tomará conta do posto de conselheira cultural graças à argúcia do Ministro dos Negócios Estrangeiros que tão bem soube encontrar um expediente para contornar as leis vigentes, que em dezenas de sítios servem para impedir que milhares de pessoas ocupem determinados cargos ou desempenhem certas profissões – penalizará o país, que perde uma parlamentar clarividente.

Um amigo de Maria Elisa, “com vasta experiência política e largos anos de vida parlamentar”, ofereceu-lhe um conselho: “Você vai estranhar, nos primeiros tempos. Mas deixe-se afeiçoar pelo Parlamento.” A sugestão entrou por um ouvido e saiu por outro.

Compreende-se. O trabalho parlamentar nem sempre é suficientemente compensador. Diz Maria Elisa: “Nos gabinetes, que partilhamos com colegas, espera-nos também a correspondência e as mensagens dos nossos eleitores e de todos os cidadãos que consideram que vale a pena dirigirem-se aos deputados, para expor problemas da mais variada natureza”. Uns chatos, portanto.

E depois “é preciso responder-lhes, ou encaminhar os assuntos ainda que, por vezes, desde logo com a íntima convicção de que eles morrerão, ao sair do nosso circuito mais próximo”. Tanto trabalho para nada. Não era melhor deitar logo a papelada toda para o lixo?

O parlamento também serviu a Maria Elisa para o exercício de uma semiologia simples, mas de grande proveito para os eleitores. A nação muito lucrou quando ficou a saber que a deputada achava
“curiosa a forma como os homens se vestem, na AR. A cada grupo político, a sua ‘farda’, com margem para nuances, no caso daqueles para quem os detalhes contam (não são muitos)”.

As observações de Maria Elisa permitem compreender muito do que se passa no país. Bem vistas as coisas, Portugal é o que é porque os deputados, “regra geral, tendem a ser formais o que está, aliás, em consonância com os ‘Vossas Excelências’ trocados a todo o instante”. E embora nem todos o consigam perceber “a pseudo-informalidade dos três deputados do Bloco de Esquerda é particularmente conservadora: não usar gravata por sistema é uma atitude tão rígida como vestir sempre fato e gravata”.

Dois meses de Parlamento bastaram para Maria Elisa compreender o regimento parlamentar e o estatuto da oposição: “tem-me parecido que Francisco Louçã acentua o pendor sweat-shirt quando se anunciam visitas do Governo. Nas reuniões ‘mais caseiras’ veste por vezes fato, mas nunca usa gravata, o que constitui, por si só, uma imagem de marca”.

Mostrando a sua natureza independente, Maria Elisa observa que “já na esquerda versão Partido Socialista, o corte dos fatos é, com frequência, de qualidade superior à generalidade da bancada do Partido Social Democrata e faz-se acompanhar, nalguns casos, de gravatas de gosto requintado portadoras, quem sabe?, de subtis mensagens. Também aqui o traje é um statement, como quem diz: ‘Atenção, estamos preparados para reassumir o poder a qualquer momento'”.

A fraca qualidade da indumentária sobretudo dos seus colegas de bancada pode explicar a temporária saída de Maria Elisa da Assembleia da República, onde meteu uma baixa por motivo de doença para regressar ao trabalho, digamos assim, na RTP.

A estação televisiva, contudo, era apenas um apeadeiro na viagem que continuou até Inglaterra. O novo rumo que a senhora tomou não foi apreciado pelo colunismo nacional, que pensa, erradamente, que na terra de Sua Majestade não há problemas indumentários.

É verdade que Isabel II se consagra “como absoluto ícone”, pois “as suas célebres toilettes, empalidecidas pelo glamour juvenil de Diana ganharam um novo elã”. De tal modo que “interrogados sobre o que mudariam na imagem da soberana se a pudessem vestir, os mais famosos e arrojados estilistas ingleses são unânimes: Nada”. O bem-vestir da rainha não é suficiente para evitar sarilhos.

Como Maria Elisa nos contou há tempos, por ocasião das cerimónias fúnebres da Rainha Mãe, houve “um detalhe que gerou enorme polémica”. Com assinalável agudeza semiológica, Maria Elisa anotou que “o display à volta do seu caixão, na capela do palácio de St. James, revela pormenores comoventes, que raras vezes os membros da coroa britânica se permitem: não falta sequer um vaso de jasmins frescos, o último presente de Páscoa de Carlos, o neto mais velho e herdeiro da coroa”. Mas nada disto foi polémico.

O que alvoroçou o país foi “a cor da gravata do jornalista da BBC1 que anunciou a trágica notícia”. A dita era “cor de vinho (burgundy) e não preta”. E “apesar de sóbria, provocou uma onda de criticismo, tanto mais que o público recorda ainda as gravatas pretas usadas por todos os jornalistas na morte de Diana”.

Como se mistura sempre tudo com a política, os dirigentes da BBC, “apoiantes do Partido Trabalhista”, foram acusados “de abraçar ideias republicanas, devido ao facto de permitirem o uso de tal gravata”. Em defesa deles foi dito que, “nos tempos de hoje, o uso da cor preta apenas seria exigida no próprio dia do enterro, não se justificando nos anteriores”. Uma confusão.

Maria Elisa não vai ter uma vida nada tranquila. Ela sabe que há problemas a que, nem em Inglaterra, uma boa alma consegue escapar. E sabe também que o país não lhe perdoará se ela, alguma vez, usar um trapinho, uma écharpe, uns sapatos, uma jóia, qualquer coisa que diminua a nossa representação no estrangeiro ou que possa, sobretudo, desprestigiar a política.

P.S.: as citações são extraídas da página que Maria Elisa ocupa no Diário de Notícias.




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