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Um pouco de xenofobia para combater a xenofobia

Quando Manuel Monteiro anunciou a criação de um novo Partido achei de imediato que se tratava duma iniciativa condenada ao fracasso mas que iria ter um profundo e negativo impacto no actual Governo. Hoje, esse efeito é claramente visível.

N/D
27 Set 2003

Um CDS – PP sem “concorrência” à direita estava liberto para moderar discurso tornando-se cada vez mais “Democrata Cristão” e menos “Popular”.
Não terá sido por acaso que Paulo Portas retomou a velha sigla CDS, votando ao esquecimento o heterónimo “PP”.

Aliada ao enredo do caso Moderna foi esta moderação que tornou possível a co-habitação em que poucos pareciam apostar.

Encerrado o caso Moderna e criado que está o partido de Manuel Monteiro acredito que ficaram seriamente abalados os pilares da convivência entre os dois Partidos da coligação.

Todos os analistas foram unânimes em afirmar que para ganhar espaço Manuel Monteiro irá ler pela cartilha populista, agitando fantasmas caros à direita extremista: Segurança, perda de soberânia na-cional e imigração.

Paulo Portas sabe bem o efeito que esse discurso pode ter no seu eleitorado. Afinal noutros tempos terá sido ele o autor da estratégia de radicalização levada a cabo por Monteiro.

Por isso é praticamente certo que tudo fará para não abrir o flanco ao seu “ex” protegido.

As consequências na estabilidade da sua relação com o primeiro ministro são óbvias.

O discurso do ministro da defesa na reentré do seu Partido já fazia advinhar esse problema, nomeadamente na tónica que foi dada à necessidade de dar trabalho aos portugueses em primeiro lugar.

Portas não ignora que se trata de pura demagogia. Os imigrantes representam hoje 10% da nossa força de trabalho. Um peso destes só é possível porque eles são efectivamente necessários para o nosso crescimento económico e, em última análise, para pagar as pensões dos nossos reformados.
Para além disso, estatistícas à parte, quem conhece o País sabe perfeitamente a falta que eles fazem. Sem eles muitas das nossas empresas dos mais diversos sectores já teriam parado.

Mais preocupantes no seu significado político são os excertos da Moção de Paulo Portas no Congresso do seu Partido e que entretanto foram divulgados na Comunicação Social. Neles, é clara a mesma tónica de relacionar o problema do desemprego com o excesso de imigrantes.

Felizmente o PSD está a dar sinais de desconforto patentes em várias tomadas de posição, tais como o recente comunicado do Padre Vaz Pinto onde se afirma “preto no branco” que os estrangeiros não são uma ameaça para os portugueses em termos de emprego e de segurança. Saliente-se o facto do Comissário para as Minorias Étnicas ter antecipado a questão da segurança.

Igual sinal foi dado pelo Secretário de Estado da presidência que numa entrevista dada ao Público disse sem papas na língua que “a imigração é positiva para o País” e, mais esclarecedoramente, que “podemos interpretar como sendo demagógica uma visão extremista que diz que Portugal não precisa de ter imigrantes porque estão a tirar trabalho aos portugueses” (sublinhados meus).

A bem da estabilidade política de que o País tanto precisa para se relançar economicamente espero que a direcção do PP saiba interpretar estes sinais. Porém, Portas defende-se dizendo que estas posições são uma espécie de paliativo, já que com elas consegue conter os sentimentos de racismo e xenofobia… como se muito “racismo e xenofobia” pudessem ser combatidos com pouco “racismo e xenofobia” .

Tudo indica que o verdadeiro problema se chama Nova Democracia. Um Partido provavelmente destinado ao fracasso mas que, sem resultados directos para o seu fundador, poderá ser responsável pelo fim da estabilidade da relação entre Durão Barroso e Paulo Portas.

Pessoalmente espero que a coligação se mantenha estável… desde que não seja por cedência do PSD.




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