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Unidade na multiculturalidade

A onde um homem sempre chegou, veio também a dor. Uma situação de perfeição absoluta é para nós inatingível» (Theodor Fontane)

N/D
26 Set 2003

Atrás dos vestígios de São Bonifácio, de Santa Isabel da Turíngia ou de Martinho Lutero, nada mais interessante do que uma viagem à ex-DDR, no Leste, outrora comunista.
Seguir por Frankfurt, parar em Eisenach, Wartburg ou Erfurt, eis um roteiro dos mais interessantes da Alemanha, não só para conhecer um desenvolvimento extraordinário, após a queda do muro de Berlim, como avaliar os passos lentos de uma região, com cerca de 2 milhões e 300 mil habitantes, 60 por cento de desempregados, 8,3 pc de católicos e 10 pc de evangélicos, e a maior parte ainda agnósticos ou não cristãos.

Trata-se de uma situação nova de missão e evangelização com igrejas abertas a cristãos e não cristãos, que congregam muitas pessoas ligadas por valores em sintonia na arte, história, cultura, onde a confessionalidade não joga o papel mais importante. Pretende-se «evangelizar» – conforme palavras do Bispo de Erfurt, Joaquim Wanke -, criar uma Igreja como oásis de procura e de saudades por algo, que se perdeu sob a in-fluência e educação comunista de três gerações, cuja fé, ou foi perseguida, ou permaneceu no anonimato, mas não vive de preconceitos e quer juntar todos os homens de boa vontade.

As condições abertas com a liberdade religiosa despertaram novos valores, levam a pôr em questão ou motivam para outras interrogações ou alternativas como a preparação consciente para o Baptismo, ou para a Confirmação, em vez do dia de consagração da Juventude Comunista.

Não podia imaginar tanto ódio dos comunistas contra o Cristianismo, como não poderia compreender que até a escola fosse negada aos que se declaravam cristãos… Assim foram crescendo gerações em tais moldes, ordenados padres sem conclusão do liceu oficial, que apenas torceram o bico ao prego depois da catástrofe económica, cujos indícios são ainda visíveis, apesar de uma grande transformação económica e social, restauro e conservação das igrejas, tanto católicas como evangélicas.

Trata-se de um novo enquadramento, bem expresso nas escolas e arquitectura eclesiástica, toda embelezada, em que guias bem preparados procuram conduzir os turistas numa catequese bem articulada e retorno a origens cristãs. Impressionou-me a forma como o fazem, onde são sempre vincadas as fontes do cristianismo, explicados todos os símbolos religiosos, as vertentes católicas de Santa Isabel da Turíngia, com as suas obras de misericórdia, ou mesmo Martinho Lutero, cuja cela no castelo, em Wartburg, ginásio onde estudou e, mais tarde, traduziu o Novo Testamento, a partir do Grego e do Latim, bem como a igreja dos Agostinhos, em Erfurt. Aqui pregou as suas teses da reforma ou contra-reforma. Vale a pena descobrir estes vestígios para compreender o cisma protestante, bem como a sua mundividência e alcance na preocupação de a Bíblia ser traduzida nas línguas modernas nacionais.

O que mais impressiona, porém, é que se procura um denominador comum de diálogo humano sadio de modo a juntar católicos e evangélicos, crentes e não crentes, sob respeito mútuo, sem esconder ou renegar o percurso de cada um – consagrando até o dia de São Valentim -, em que uns e outros vão à Igreja receber a bênção do sacerdote no namoro, ou para o seu futuro enlace matrimonial. É uma pastoral mais de (pré-)catecumenato ou de evangelização, fundada na boa vontade e na ânsia de mais e melhor.

O mesmo acontece com a celebração dos doentes e dos mortos, em que muitos cristãos foram enterrados no maior anonimato, ou por perseguição. Hoje juntam-se em celebrações, todos os meses, para lembrar os falecidos. Em tudo procura-se uma catequese a despertar para os valores do transcendental, do invisível, pelo efémero, como pistas para novas interrogações de vida e valores. É verdadeiramente uma pastoral de contacto, a princípio simplesmente horizontal, e só depois de evangelização e sacramento.

Reconhece-se cada vez mais uma ânsia de espiritual e de religioso, embora tudo seja muito estranho em algumas gerações, a quem foi cortada ou perseguida qualquer dimensão religiosa. Nada obsta porém a que muitos se juntem, sobretudo por motivos culturais, sociais, políticos ou de conhecimento mútuo, o que tem levado a um turismo extraordinário, dos mais representativos da Alemanha reunificada, mas multicultural. Poderá haver religioso sem o humano, invisível sem o visível, impresso sem o expresso?




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