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Dia Mundial do Idoso

O associativismo desenvolveu-se, atingindo uma considerável dimensão, a todos os níveis, sobretudo, depois da grande conquista do sistema democrático. Mas só com a Revolução Francesa em 1789 se começou a contestar o poder divino dos reis e, através de revoluções, desmantelar o poder hereditário que veio dar lugar às democracias liberais e representativas.

N/D
26 Set 2003

E é a partir da prática do sistema democrático que se assiste a um crescente desenvolvimento das actividades associativas com várias origens: Associações de Amizade, de cultura, de recreio, de desporto, Associação de proprietários, de Inquilinos, Associação Comercial e Industrial; de Bombeiros Voluntários; Associação dos Hemofílicos; Asso-ciação de Pais e de jovens e também Associação de Idosos. Umas de interesse público, outras de interesse particular.
Ao aproximar-se Outubro, é bom não deixar passar em branco o Dia Mundial do Idoso, celebrado neste mês e recordar que velhos são os trapos como diz o povo. Há pessoas idosas de muita idade e velhos de pouca idade, porque adoeceram, envelhecendo precocemente. E tal situação acaba por lhe toldar o espírito, tirando-lhe a alegria de viver, levando-os, tantas vezes, a desejar que a morte lhe bata à porta e depressa. Assim, convém não confundir idosos com velhos. Pois ser idoso é estar agarrado à vida, vivê-la com entusiasmo até à exalação do último suspiro; é sonhar, é ter vontade de servir, ter uma relação alegre e pedagógica com os netos, ajudando-os a preparar-se para a vida; é ter ambição; é sentir-se jovem para aprender, frequentando mesmo Universidades para pessoas de sua idade; é praticar desporto; preservar a saúde, não fumando, nem abusando de bebidas alcoólicas; é participar em associações de amizade, de cultura, de desporto; ser idoso é ter o gosto de passear, é praticar a solidariedade, fraternidade, ajudando-se mutuamente uns aos outros. No fundo, é ter ambição de se tornar útil e não um peso morto, dentro da sociedade. Ser idoso é ainda lutar por uma vida longa e com qualidade, sem nunca se sentir velho. Muito exercício, bulir com tudo e se isso já não for possível, bulir com o que puder.

As sociedades ocidentais perderam já o respeito pelos mais velhos, respeito que era um sentimento que caracterizava as sociedades dos tempos primitivos. Ser mais velho era como ser sábio, dada a experiência da vida – o pai era considerado verdadeiro pater familias.

Hoje, sobretudo nos centros urbanos, anda toda a gente a correr. Os idosos são geralmente considerados um empecilho para a família e para a sociedade. A mulher, hoje, não pode dar-se ao luxo de ter serviçal. Trabalha em casa e cumpre horário no emprego. Procura ter apenas um filho. É que, entretanto, os pais adoecem e, por muito que custe aos filhos, são empurrados para um lar de terceira idade. Por falta de recursos procura-se o lar de custos mais baixos. Tantas vezes improvisados e sem condições de higiene e segurança. As depressões vão avançando até atingirem perdas de consciência. Outras vezes, por falta de condições, não são poucos os que cortam radicalmente com a família para se juntarem ao grupo dos sem abrigo.

Outros ainda não resistem à pressão de antecipar a morte por não suportar mais o flagelo da solidão. Numa manhã de Abril, em 1987, no terceiro andar de um edifício do século XIX, a porteira tocou à porta do apartamento de Primo Levi, em Turim, Itália. O escritor e cientista, autor dos mais convincentes relatos do holocausto tinha nascido naquele mesmo apartamento. Em mangas de camisa, Levi abriu a porta, recebeu o correio e, delicadamente, sorriu e agradeceu-lhe. Poucos minutos depois, caía no rés do chão, junto à caixa do elevador. Tinha 68 anos. Havia passado pelo humilhante campo de concentração. Primo Levi era um sobrevivente de Auschwitz. Décadas mais tarde suicida-se. Foi a solidão que lhe tirou o gosto de viver.

Maria Lais, antropóloga, acompanhou a trajectória de 175 pessoas maiores de 65 anos. Constatou que na periferia, participam da vida familiar, cuidam de crianças, fazem recados, conhecem os vizinhos e vêem televisão com todos os parentes. Nos centros urbanos, mesmo em cidades ricas, vivem encarcerados, empanturrados frente à televisão ou espreitando envergonhadamente por detrás das janelas Quando vêm à rua, não conhecem ninguém e ninguém os conhece a eles.

Que saudades eu tenho da solidariedade de vizinhança do meio rural onde nasci e fui criado até aos 17 anos!

Ao cair da tarde, regressavam do monte os carros de bois com as chedas a chiarem, fazendo-se ouvir lugar abaixo; a vezeira, cabras com o seu chibo, ovelhas com o seu carneiro enfeitado com os seus abastados cornos bem torcidos, para afastarem a concorrência. Tantas vezes essas pessoas humildes do campo paravam, benziam-se e lá respondiam, pelo menos a um mistério, ao terço que a tia Maria Raposa rezava e, em coro, os vizinhos respondiam. E o seu filho, o ruço, ainda de pouca idade, mas cansado do trabalho árduo, durante o dia inteiro, adormecia com a cabeça sobre o regaço da mãe. – «Belino vai para a cama», – «Santa Maria mãe de Deus…». «Belino levanta-te, já acabou terço», – «Santa Maria mãe de Deus…». E lá o levavam, em charola, para a cama. Não havia fome de caldo e um prato de persigo uma vez ao dia para os pobres. Quando adoecia alguém, gravemente, logo acorria toda a vizinhança a prestar auxílio humanitário. Apesar de não haver reforma, no fim da vida, ninguém morria à fome. Mas, infelizmente, também a solidariedade do meio rural não tarda a acabar, se é que não acabou já.

Que saudades o ruço tem dos burros do moleiro que, aos oito anos, já montava em pelo; de beber na levada onde o gado matava a sede; dos montes, dos rios, das poças onde tanta vez em coirato tomava banho. E da cabra amarela (e do seu úbere bem atestado) que tantas vezes desenrascou situações de aperto; do seu carrinho com rodas de tábua para ir à bosta e à lenha, com a mãe Raposa a empurrar com a sachola: «força ruço, para a frente é que é o caminho, não temos as renas dos ricos, antes do pôr-do-sol temos de estar de volta». Talvez por causa da idade, foi o ruço mais feliz à cabeçalha daquele pobre carrinho do que, hoje, ao volante do seu potente Mercedes.
Felizes os idosos desse tempo. Morriam em família sem fome, sem frio, e sem saber o que era a solidão.




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