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O contrasenso

Pela nossa vida fora topamos com muitos contrasensos. Se alguns vêm do nosso próprio interior, por qualquer vivência menos boa, muitos deles também os carregamos porque somos parte integrante duma família ou duma sociedade, onde tudo cresce, se amolga, se dispersa e nos surge para nos desafiar, nos engolir ou mesmo, também, para nos elevar e sublimar.

N/D
24 Set 2003

Dentro de nós, à nossa beira, em volta de nós, tocam-se os opostos, os contraditórios, os similares e os complementares. Talvez em época alguma, estas contradições e estes contrasensos tenham de viver mais lado a lado que no nosso tempo. Tudo isto para quê?
Simplesmente por causa de duas notícias que ouvi no mesmo dia, na mesma televisão, e vindas da actuação do mesmo Governo.

Primeira notícia: o Governo decidiu adquirir para o serviço da Defesa Nacional instrumentos no valor de oitenta milhões de euros.

Segunda notícia: Associações de Educação e Escolas privadas na iminência de não poderem funcionar pelo corte de verbas no montante de 20 por cento.

Poderão perguntar: que tem haver isto com o título “contrasenso”?

Na verdade, para uns não tem nada a haver; para outros, talvez, tenha muito a haver.

Por exemplo, para mim, que me dediquei sempre à educação, um dos grandes esforços da minha vida passou pela difusão cultural e pela literatura e música, fere-me o coração e é o máximo dos contrasensos ter de suportar nos meus ouvidos aquelas duas notícias disparatadas.

Para mim é uma afronta à cultura, à educação do povo, à democracia, ao crescimento equilibrado da sociedade, investir na defesa (defesa de quem e de quê?) e, depois, cortar-se no ensino, na cultura.

Aquilo que mais me magoava em reuniões com alemães, durante 20 anos, para discutir problemas com os nossos emigrantes naquela sociedade, mormente os relacionados com as escolas e a cultura portuguesa na sociedade alemã, era de vez enquando aparecerem as estatísticas internacionais, pondo-nos na cauda da Europa neste sector. E mais me feria ao saber que as entidades portuguesas quase nada continuavam a fazer para preservar a nossa cultura entre as comunidades portuguesas.

Infelizmente, hoje sei que muitas iniciativas culturais deixaram de se fazer por falta de apoio financeiro, muitos jornais e revistas já não circulam, muitos Postos Consulares já fecharam e também muitos cursos e muitas escolas deixaram de difundir a cultura do nosso país.

Estaremos a ver bem o nosso futuro?

Não estaremos a hipotecar a nossa cultura?

E quando se pensa mais na defesa que nas escolas?

E quando o orçamento cresce para comprar blindados em vez de ser para investimento escolar e cultural?

Não me digam que não há contrasensos na nossa sociedade! Há-os e grandes. É só estar atento às notícias de todos os dias.

Mas, se calhar, muitos já fecharam as televisões à hora do almoço ou do jantar!




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