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Meu caro Zé:

Milene (até o nome é doce), recém-licenciada em engenharia electrotécnica, tem um problema. Ou melhor: muitos problemas – não consegue arranjar trabalho (porque emprego é mesmo uma miragem!) e, consequentemente, continua a expensas da família, não se realiza pessoal e profissionalmente, vê o futuro sem futuro. Ao longo de vários anos estudou, queimou demais as […]

N/D
24 Set 2003

Milene (até o nome é doce), recém-licenciada em engenharia electrotécnica, tem um problema. Ou melhor: muitos problemas – não consegue arranjar trabalho (porque emprego é mesmo uma miragem!) e, consequentemente, continua a expensas da família, não se realiza pessoal e profissionalmente, vê o futuro sem futuro.
Ao longo de vários anos estudou, queimou demais as pestanas, sacrificou muita da sua vida e dos seus. Sonhou! E, agora, com o canudo na mão, apenas se pode dar ao entretenimento de ver tudo pelo… canudo!

Responde a anúncios, presta provas, faz entrevistas e… nada! Dizem-lhe, friamente, que não tem perfil para o cargo! E ela vê sempre alguém que lhe passa à frente, que entra pela porta do cavalo!

E ela conhece-os bem e são sempre os mesmos – seus ex-colegas que, como grandes nabos e autênticas abéculas, têm diplomas tirados a ferros, de meia tigela! Mas que são, obviamente, filhos, enteados e afilhados, ou amigos dos filhos, dos enteados e dos afilhados, ou amigos dos amigos dos filhos, dos enteados e dos afilhados dos presidentes, directores, administradores, secretários, ou sub-secretários de partidos políticos, empresas, agremiações, secretarias, lojas!

Uma parafernália de exótica fauna social!

2. Ora, caro Zé, sabes tão bem quanto eu que, assim, não vamos lá. Que esta é a melhor forma de andar para trás, de pôr o homem errado no lugar certo, de promover a incompetência, o laxismo, a sabujice, a corrupção que, a longo prazo, lançarão o país no caos, no pântano administrativo e organizacional.

Desde o 25 de Abril (e já perto do seu 30.º aniversário) que certa política está a dar cabo da juventude e a empurrá-la para o vazio, a frustração! Criaram-lhe sonhos, ilusões! Mormente, o sonho e a ilusão da igualdade! Da igualdade de oportunidades! E nunca, como hoje, estivemos tão perto de ser tão desiguais, quanto diferentes!

Ora, então, como sabes, em vez da solidariedade, da tolerância e da generosidade desenvolvem-se nos jovens o individualismo, a inimizade, o egoísmo, a luta desenfreada por um lugar ao sol! Porque faltam os anéis e sobram os dedos! Ou melhor, porque ninguém pode dar o que não tem!

Todavia, meu velho, continuamos, alegremente, um país de maravilhosos contrastes e amplas originalidades! Por exemplo, de país de agricultores, pescadores, calceteiros, trolhas, carpinteiros… passámos a país de doutores! Mas, desempregados! O que faz com que este cabedal de conhecimentos, de cultura, de pouco ou nada nos tenha servido, porque pouco ou nada temos progredido; pouco ou nada temos deixado de ser o país rural de sempre (embora, desgraçadamente, já sem leiras nem charruas)!

Milhares de licenciados que gastaram rios de dinheiro ao erário público andam a apanhar bonés, porque não há trabalho qualificado para eles. Mas, em contrapartida, escasseia mão-de-obra na construção civil, na pichelaria, na carpintaria, na hotelaria, etc., etc.,etc.

E, assim, surgem os imigrantes! Que luxo! De país de emigrados depressa passámos a país de imigrantes! E tesos como virotes e com os inevitáveis constrangimentos sócio-económicos e sociais que é fácil imaginares! Mormente, porque as courelas não chegam para pagar esta singularidade histórica de entregarmos o reino nas mãos desta moirama e vivermos à sombra da bananeira!

Milene (até o nome é doce), caro Zé, protesta! Milene sofre! Milene descrê! E como ela milhares de Milenes protestam, sofrem e descrêem de que possa vir (seja numa manhã de nevoeiro, ou de céu azul) um D. Sebastião (mesmo de óculos de sol, telemóvel, PC portátil e GPS) que tire o país da apagada e vil tristeza (de que falava o épico) em que mergulhou!

Pobres Milenes que não vêem cumprido o 25 de Abril da tolerância, da solidariedade e da igualdade de oportunidade!

Venham daí esses ossos e até de hoje a oito!




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