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Onde se fala de paixões, dinheiro e outras maleitas do espírito

1- Era uma vez um Estádio Municipal que era uma autêntica obra de arte, de valor incalculável. A Câmara Municipal, legítima proprietária da dita catedral da bola, ainda em construção, não se lembrara, até então, de a baptizar e os dirigentes do clube da terra andavam acabrunhados e tristes porque viam faltar a empatia entre o povo e o futuro doce lar da tão amada colectividade. E vai daí, decidiram, eles próprios, proceder ao baptismo do grandioso monumento. Pensaram, pensaram, continuaram a pensar, e em boa hora decidiram que tamanha febre despesista só podia ser resultado de uma paixão assolapada, daquelas que nos dão na adolescência e nos deixam aparvalhados, de beicinho caído e olhar fixo no infinito. Estava encontrado o tão desejado nome. Nascia na memória colectiva bracarense o Estádio das Paixões. Já era possível “vender as cadeiras”.

N/D
23 Set 2003

Acontece que alguém chamou a atenção para o facto de não existir nenhum acordo entre o legítimo proprietário da obra de arte e o previsível utilizador da mesma. Tinha acontecido, ao que parece, aquilo que acontece muitas vezes quando as pessoas se apaixonam demais: tinham posto o carro à frente dos bois.
Um homem apaixonado é, pelo menos nos romances, um homem de palavra e isso disse o Presidente da Câmara, que há mais de um quarto de século fazia juras de amor eterno ao “seu Braguinha”. Não importava que ele próprio não fosse a Câmara nem que um contrato-programa fosse o instrumento óbvio e transparente para acordar os moldes em que se faria a utilização da obra de arte: um cavalheiro que é cavalheiro mantém as suas paixões entre quatro paredes e respeita sempre o protocolo da tradição. Até para preservar a imagem da dama…

2 – Mas a tradição ainda é o que era? A pergunta só podia vir de um irresponsável da oposição e (que bandido!) aparentemente benfiquista que nunca deve ter ouvido dizer que entre marido e mulher não se mete a colher. Ao que parece, nos tempos em que funcionava o “protocolo da tradição” a dama, que vivia em constantes dificuldades financeiras, era uma espécie de “barriga de aluguer” e desfazia-se de todos os presentes do seu apaixonado, dando muito dinheiro a ganhar a outras pessoas que, até agora, não tinham entrado na história. O Jornal de Notícias do passado dia 21 (página31) explica e exemplifica isto melhor do que eu, que nestas coisas das paixões dos outros sempre fui um bocado púdico: “Conforme a certidão da conservatória a que o JN teve acesso […] a autorização de loteamento deu lugar a 132 lotes de terreno, vendidos posteriormente a particulares, não sem antes beneficiar da isenção de taxas camarárias, pelo facto de o clube ser uma instituição de utilidade pública. A agora denominada Encosta do Sol foi adquirida por um milhão e cem mil euros (220 mil contos), em nome do Sporting de Braga. Já nas mãos de particulares, apenas uma parcela de 1,5 hectares [de um total de 22,5 hectares] foi vendida por 900 mil euros (180 mil contos) […]. Os «verdadeiros» compradores da quinta (consórcio formado por vários empresários[…]) acabaram por gastar 200 mil euros (40 mil contos) na compra de… 21 hectares de terreno.” Tudo isto numa altura em que, volto a citar, “o clube vivia uma crise directiva sob a liderança de uma comissão administrativa”.

A conclusão que se podia tirar desta história que, pelos vistos, está longe de ser isolada, é que o apaixonado foi ludibriado pela dama que, por sua vez, foi violentada e enganada por terceiros. Isto merecia uma investigação a sério, mas não parece ser essa a vontade nem dos actuais responsáveis do Sporting de Braga, nem do Sr. Presidente da Câmara.

3 – O amor é cego e vê, não sei porquê… Perante a suspeita instalada, o presidente enamorado faz o que qualquer verdadeiro macho latino faria no seu lugar. Sem querer sequer ouvir falar em inquéritos, nega até às últimas consequências ter sido enganado sem, no entanto, admitir que soubesse de alguma coisa. Diz que se recusa a acreditar e que, se algo de estranho se passou, foi a sua pobre e indefesa donzela que foi prejudicada. Se outros a amassem como ele a ama, decerto não profeririam tamanhas infâmias.

Por seu turno, ela não quer saber de quem se preocupa com ela e dispara em todas as direcções. Há um provérbio africano que diz que os nossos amigos são os nossos olhos de trás, porque conseguem ver o que nós não vemos. Mas ela, a direcção do “Braguinha”, não quer saber de nada disso. Importante para uma senhora é manter a reputação e exclama indignada, benfiquista duma figa!, reagindo a quente contra o acusador e a memória de toda uma comunidade que teve a ousadia de ir buscar aos baús do passado as suas historietas mais inconfessáveis.

No meio disto tudo, a verdade, que os cidadãos gostariam de conhecer. Mas dessa, eles não querem saber. Eles só queriam que as paixões fossem menos complicadas e que cada um se metesse na sua vida…




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