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A propósito dos 24 mil candidatos a professores não colocados

Nas memórias da nossa vida aparecem certamente momentos inesquecíveis. Há alguns dias, perante as notícias dum jornal – que encabeçava a primeira página -, recordou-se o autor destas linhas do começo da sua vida docente. Já lá vão bastantes anos. Concorreu, sem muito interesse na resposta, para dar aulas da sua especialidade no ensino público de então. Pensava, como hipótese entre outras, dedicar-se à docência. Não contava, porém, com a pressa e o despacho do Ministério da Educação.

N/D
23 Set 2003

Sem cerimónias, escreve-lhe num dia de Setembro, indicando onde ficava colocado e dando-lhe a possibilidade de levantar um bilhete de comboio na estação mais próxima da sua residência, a fim de viajar até à escola que se lhe atribuía. Tão simples como isso. Fiquei nessa mesma hora empregado. E o telefone da minha casa, também nesse dia, chamou-me a encarecer a minha presença rápida no referido estabelecimento escolar. Queria que eu verificasse se o horário que me era destinado necessitava de alguma alteração de pormenor – não, obviamente, de fundo – para se dar início às aulas, no dia indicado, sem grandes sobressaltos…
Que pena senti dos 24.000 candidatos à docência pública que ficaram sem colocar, em virtude de haver excesso de procura docente e escassez de matéria prima discente, neste ano em curso. Por razões profissionais, estive ausente da minha morada actual numa região tipicamente rural. Passei por várias aldeias. Não foi excepção encontrar as escolas, outrora pejadas de crianças alegres e traquinas, transformadas em restaurante local, em sede de alguma associação folclórica, etc. E havia ainda as que não perfaziam nenhuma das situações referidas, pois, pura e simplesmente, como velhas reformadas sem amparo e sem protecção, tinham os telhados a cair, os vidros partidos, etc., etc., etc…

Para não terminar o rol dos meus agravos e penas, verifiquei, estupefacto, com as órbitas fora dos olhos, o que nunca imaginara supor nos dias da minha existência: o meu velho liceu portuense – “tripeiro”, como prefiro dizer dum modo mais castiço – ia ser aglutinado ao das “miúdas”, situado mesmo ao lado. Aí vi começar tantos e salutares namoricos, que depois redundaram em matrimónios férteis de crianças. Mas estas são hoje as dores de cabeça dos meus colegas da altura, quando me noticiam, muito de longe em longe, que conseguiram convencer a sua filha ou o seu filho, depois de espinhosas abordagens, a gerar um descendente, o netito de estimação.

Por este andar, haverá dentro em breve pó e teias de aranhas nos sindicatos da classe docente. A menos que os seus mentores acordem e se disponham a enveredar por caminhos de rigor e de objectividade reais. Ou seja, arvorando-se em defensores acérrimos de políticas natalistas e condenando com o mesmo vigor tudo aquilo que levou o nosso país a esta carência brutal da matéria prima, que constitui a condição sine qua non para que os seus associados possam trabalhar. Não se trata já da defesa das condições ideais de trabalho dos seus associados. Precisam de conseguir garantir o mínimo metabolismo de base para que eles consigam exercitar a sua profissão. De momento, e perante tão grave calamidade, estas instituições de classe deveriam deixar de chamar-se sindicatos de professores, para se auto-proclamarem sindicatos dos desempregados ou dos masoquistas que teimam em candidatar-se ao trabalho docente.

A situação que se vive é um círculo-quadrado. Diminui, anualmente, aos muitos milhares, o número de alunos; aumenta – não sei se exponencialmente – a cifra de candidatos à docência. Resultado lógico: desemprego…

Consta-me que em Itália já houve manifestações de professores, que exibiram cartazes e lançaram ditos virulentos contra tudo o que evita o nascimento normal de crianças, os futuros alunos: pílulas anti-conceptivas, preservativos, etc. E não se tratava de uma manifestação confessional, mas tão só de quem vê o futuro da classe perigosamente ameaçada por esses meios dissuasores da natalidade natural duma sociedade.

Não sei se será uma boa sugestão para os sindicatos de professores. Costuma dizer-se, no entanto, que «em tempo de guerra não se limpam as armas». E os professores não podem deixar de entrar em guerra contra quem, todos os anos, lança tantos e tantos colegas seus no desemprego. É um inimigo claro, concreto, impiedoso e implacável.




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