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O assassinato de Anna Lindh

Oassassinato de Anna Lindh, ministra dos Negócios Estrangeiros da Suécia, deu origem a comentários como este: no país da velha democracia acontece um horror destes, perguntam os que esperam todos os motivos para denegrir a democracia? Mas que tem a ver a democracia com um acto de violência que ninguém pode conotar com qualquer movimento contrário à democracia?

N/D
22 Set 2003

Não é árvore desta floresta. Depois da morte do Primeiro-Ministro em exercício Olaf Palmer, também assassinado por um desconhecido, por acaso a democracia sueca sofreu algum desvio? Temeu-se a sua queda, ou tremeram de medo aqueles que acreditam que a democracia é a diversidade de pensamento, o direito à diferença, o poder discordar em voz alta? Por que será que esta liberdade incomoda tanta gente? Claro que o assassinato de Anna Lindh nada tem a ver com a democracia. Isto foi obra de fanático, de um único louco, filho de uma obsessão doentia, prisioneiro de uma qualquer doença de foro psiquiátrico; são da mesma têmpera daqueles que assassinaram Abraham Lincoln no teatro ou o Duque de Buchingan em Porstmouth, ou o hippie Jonh Lennon na rua, ou os Kennedy na América do Norte, etc., etc… Gandhi, o grande político e pensador indiano, o Homem da Paz sem Guerra, morreu igualmente assassinado por um fanático hindu. E quantos mais, se os citássemos, não engrossariam as listas destas vítimas de opinião? Os homens que morrem assim, deixam os seus ideais como frutos de boas árvores: têm fragrâncias e paladares que recendem para sempre. São, como disse Camões, os que «se vão da lei da morte libertando». Assassinaram Anna Lindh pela convicção e empenho com que esta senhora se bateu pela moeda única europeia. Os suecos, por razões íntimas que eles certamente a si mesmos justificam, recusaram democraticamente o euro.
Então o assassino desta ministra tornou o seu tresloucado acto num acto gratuito porque sem sentido, isto é, não serviu para nada. O matador deve sentir-se frustrado porque praticou um crime em vão. Nem a ele mesmo pode chamar-se de herói, ou quiçá salvador da pátria, porque se provou que, mesmo sem a morte da sua vítima, a Suécia teria continuado com a sua coroa como moeda nacional. Isto são coisas que em nada se relacionam com a democracia. Com a democracia relacionam-se os resultados, goste-se ou não da vitória da coroa sueca sobre a moeda europeia, porque se revestiu de um referendo decorrido em plena liberdade de escolha, num clima sem perturbações, sem ser necessário ter as armas da tropa ensarilhadas nos cruzamentos das ruas.

Ganharam uns e perderam outros, o que significa que a Suécia é um país profundamente democrático e que serão actos isolados de fanáticos, doentiamente enquistados em suas obsessões, que farão perigar todo um sistema político de liberdade. Não adianta espreitar pelas gelosias do anseio porque a possibilidade de retorno ao passado é nula. Os campanários sem sinos já não chamam os fiéis. Coisas de dantes que os tempos decorridos ainda não apagaram. Mas mesmo num regime de liberdade de opinião há sempre quem cuide que a sua é a única e é a melhor. Traumas.




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