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Uma ordem de trabalhos para melhorar isto

A carta pastoral “Responsabilidade solidária pelo bem comum”, que a Conferência Episcopal Portuguesa divulgou na segunda-feira passada, é um certeiro diagnóstico do Portugal de agora e um precioso manual de instruções para fazer deste país um lugar decente.

N/D
21 Set 2003

A carta pastoral “Responsabilidade solidária pelo bem comum”, que a Conferência Episcopal Portuguesa divulgou na segunda-feira passada, é um certeiro diagnóstico do Portugal de agora e um precioso manual de instruções para fazer deste país um lugar decente. O documento, (que pode ser lido no suplemento Igreja Viva de hoje e do próximo domingo e em http://62.48.143.220/noticia.asp?noticiaid=2887), merece, evidentemente, ser lido na íntegra. Ainda assim, vale a pena destacar duas ou três passagens. Desde logo, importa realçar uma afirmação sobre a educação para a democracia, que, “enquanto participação responsável e crítica de todos os cidadãos nos assuntos públicos, é uma tarefa permanente. Tal exige informação sobre os direitos e deveres de cada cidadão, formação de uma opinião pública crítica e participante no bem comum, exercício da democracia nas famílias, nos grupos, nas escolas e nas instituições”.
A Conferência Episcopal Portuguesa identifica claramente as metástases que precisam de ser extirpadas para melhorar a saúde do corpo social (o facto de o documento se preocupar expressamente com “a saúde da democracia” autoriza o uso desta corrente metáfora clínica). As “atitudes e linhas de comportamento”, designadas por “pecados sociais”, que devem ser evitados em nome do bem comum são sete: 1. “os egoísmos individualistas, pessoais e grupais, sem perspectiva do bem comum mais global”; 2. “o consumismo, fruto de um modelo de desenvolvimento, fomentado pelos próprios mecanismos da economia, que gera clivagens entre ricos e pobres e gera insensibilidade a valores espirituais”; 3. “a corrupção, verdadeira estrutura de pecado social, que se exprime em formas perversas, violadoras da dignidade humana e da consciência moral pelo bem comum”; 4. “a desarmonia do sistema fiscal, que sobrecarrega um grupo, e pode facilitar a irresponsabilidade no cumprimento das justas obrigações”; 5. “a irresponsabilidade na estrada, com as consequências dramáticas de mortes e feridos, que são atentado ao direito à vida, à integridade física e psicológica, ao bem-estar dos cidadãos e à solidariedade”; 6. “a exagerada comercialização do fenómeno desportivo, que tem conduzido à perda progressiva do sentido do ‘jogo’ como autêntica actividade lúdica, e a falta de transparência nos negócios que envolvem muitos sectores e profissionais dalgumas áreas do desporto”; 7. “a exclusão social, gerada pela pobreza, pelo desemprego, pela falta de habitação, pela desigualdade no acesso à saúde e à educação, pelas doenças crónicas, e que atinge particularmente as famílias mais carenciadas, as crianças e as pessoas idosas, e determinados grupos sociais”.

Enumerados os sintomas, seguem-se as terapias. O documento refere algumas das atitudes, classificadas como “sinais de esperança”, que precisam de ser estimuladas: 1. “uma nova atitude perante os problemas, marcada pelo dinamismo da esperança, que se exprime no discernimento crítico dos problemas sociais, na denúncia de todas as formas de exclusão e de egoísmo e na participação solidária e responsável nas soluções”; 2. “a tomada de consciência da sociedade como comunidade cultural, quadro de sentido da existência e da vida dos povos”; 3. “a promoção de todas as formas de educação para a vida, para o ambiente, para os valores, para a cidadania, para a democracia, para a solidariedade e para o bem comum”; 4. “o incremento de tantas formas de voluntariado, num autêntico espírito de solidariedade e com poder efectivo de intervenção social”; 5. “a responsabilidade participativa de todos no mundo da saúde, da habitação, da escola, da comunicação social, do emprego, da economia, da política e da justiça”; 6. “a busca da nova identidade portuguesa, dinâmica e em construção, aberta a outros valores e culturas, capaz de construir pontes culturais com outros povos”; 7. “a construção de uma Europa baseada nos valores culturais e espirituais, sendo a integração na União Europeia e o fenómeno da globalização desafios constantes à comunidade portuguesa”.

Há muito mais para sublinhar na carta pastoral dos bispos portugueses. As passagens que importa reter são, amiúde, uma espécie de ordem de trabalhos para melhorar isto. Esperemos agora que o período antes da ordem de trabalhos não se prolongue excessivamente.

P.S.: Igualmente na segunda-feira, os bispos italianos pronunciaram-se sobre a criatura que, neste momento, preside à União Europeia. Segundo a Agência Ecclesia, a Conferência Episcopal Italiana “criticou as contínuas ‘saídas de tom’ do primeiro-ministro, Silvio Berlusconi, que, na opinião dos bispos, fomentam um clima de conflito no país e escondem uma falta de propostas válidas e de qualidade para os cidadãos”. Os bispos recordam que “a democracia não necessita de ‘tiffosi’, mas de protagonistas responsáveis e activos”.




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