Fotografia:
Mercado

I. «É meio-dia, a hora do mercado e da concorrência… Não se explica a origem, o motivo daquelas construções, nem se sabe onde vão dar aquelas portas escuras, e quem vive, quem habita naqueles balcões gradeados, que fazem sobre as fachadas ventres salientes e inesperados… Ao mesmo tempo tudo aquilo é escuro, sujo, cheio de teias de aranha, de panos pendentes, de fardos encostados às janelas, de hastes que saiem das varandas e das galerias… Na galeria, de ambos os lados, uma fileira de nichos quadrados, altos, como as capelas laterais de uma igreja, contém as mercadorias… Ali vendem-se as fazendas de lã, de algodão, os panos, as sedas, os objectos de vestuário… Uma multidão espessa e silenciosa circula ali… as ruas são estreitas e sombrias como fendas… veladas por largos panos… lançados dum lado a outro… O primeiro aspecto é de uma perspectiva confusa, não se sabe o que se vende… tudo tem uma aparência de pedaços, de destroços, de coisas partidas, amarrotadas… frutas secas, pastéis, drogas, tudo ali se reúne em confusão. As coisas estão em montes, em cima de papéis ou dentro de caixas sem tampa de sacos abertos… As moscas voam perpetuamente manchando tudo, os cães rondam farejando…»

N/D
18 Set 2003

II. Onze horas do segundo sábado de Agosto. Décimo segundo dia da imensa vaga de calor. Alertada pelo anúncio, nos diários da cidade, de que a Polícia Municipal recebera ordens para combater o caos que, desde há vários anos, se instalou na envolvente do Mercado Municipal, decidi-me pela visita.
No exterior, a confusão mantém-se. No interior, uma multidão atropela-se entre cestos e caixotes colocados ao acaso. No chão amontoam-se frutas, legumes, flores, plantas, coelhos e galináceos. As aves estão atadas aos pares, distribuídas a esmo em caixas sobrepostas. Um cheiro nauseabundo espalha-se em volta. Um casal de turistas, provavelmente inglês, regista em vídeo o seu visível espanto. Os termómetros registam 35º centígrados e, não obstante, por todo o lado, vendem ovos, ditos caseiros, sem que se torne evidente qualquer controlo sanitário. Mais à frente, sou confrontada com a venda de peixe miúdo. Em cima de caixotes, outros caixotes contêm sardinhas e carapaus. Não há sinal de qualquer acondicionamento frigorífico. A mercadoria é entregue embrulhada em papel de jornais velhos e sujos. Dizem-me que é tradição!!!

As secções de carne e peixe tem um aspecto terceiro-mundista. A variedade de sensações que os mercados nos transmitem não se evidenciam neste espaço onde tudo é escuro, apertado, velho, desordenado e doentio.

Deixo para o fim a zona das flores na esperança de esbater a péssima imagem do mercado.
Parecem-me tristes naquele ambiente!

De positivo retenho a coragem de todos os que ali trabalham e ali tem o seu ganha-pão, apesar da manifesta falta de condições e do seu protesto frequente.

III. O primeiro texto foi retirado das Notas de Viagem de Eça de Queirós e refere-se à visita efectuada pelo grande escritor ao mercado do Cairo em Novembro de 1869. O segundo texto tenta traduzir as impressões que senti no Mercado Municipal de Braga.

Não sei se os mercados do Cairo provocam hoje, passados 134 anos, a mesma repulsa aos visitantes. Sei que em Braga, no ano de 2003 são estas as sensações que os meus sentidos captaram.

Sr. Presidente da Câmara: os bracarenses mereciam melhor. É certo que rejeitaram o “graffité” do Carandá onde as elogiadas formas arquitectónicas não atraíram a sua atenção. Mas, estou segura, que aceitariam de bom grado um espaço funcional e aconchegante.

E já agora, sr. Delegado de Saúde, uma visita ao Mercado Municipal não seria de todo desproporcionada.

Quanto à propalada intervenção da Polícia Municipal não me apercebi de nenhum dos seus efeitos.




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