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A propósito de festas religiosas

Depois da Páscoa, e particularmente nos meses de Verão, surgem, por toda a parte, cartazes vistosos a anunciar as chamadas festas tradicionais das nossas vilas e aldeias, celebradas, normalmente, sob a invocação de um santo, a quem a fé e devoção dos nossos antepassados ergueu outrora artísticas igrejas ou singelas ermidas por esse Portugal além. As comunidades rurais são, por natureza, conservadoras e regem-se muito por códigos próprios, que escapam, por vezes, à lógica da razão, do progresso, da modernidade, das leis estabelecidas pelas legítimas autoridades, civis ou eclesiásticas. O princípio sagrado que determina certos comportamentos em muitos estratos populacionais é este: era assim que se fazia no tempo dos nossos pais e avós. Logo, é assim que tem de ser agora. As festas populares, consideradas património cultural dos povos, constituem a demonstração mais expressiva desta forma de pensar.

N/D
16 Set 2003

Não é fácil mudar a mentalidade de um povo nem reformar as suas tradições, mesmo que objectivamente desfasadas da realidade. Mas é imperioso fazer, por todos os meios, a pedagogia da verdade e da autenticidade, mostrando às pessoas que hoje certas tradições já não têm razão de ser e podem ser mesmo contra-valores, atentórios da dignidade humana, da autonomia das realidades terrenas e do respeito devido às instituições, nomeadamente a Igreja Católica.
Assim, não há coerência, nem verdade, nem dignidade, quando, nos tais cartazes folclóricos, se apregoam as festas em honra deste ou daquele santo e apenas se publicitam bailes, touradas, foguetório e outros números mais ou menos populares e profanos. Nem é admissível que mordomos com vida moral à margem das leis da Igreja se arvorem, uma vez ao ano, em pretensos defensores da mesma Igreja, como promotores das festas com a chancela de religiosas.

Muito menos que pretendam impôr os seus critérios sobre como devem ser hoje as festas religiosas, contra as normas gerais da Igreja, de que são responsáveis máximos os párocos nas comunidades cristãs.

A comunicação social, sempre ávida de sensacionalismo e com prazer quase sádico na publicitação (sabe-se lá com que intenções) de conflitos entre clero e povo, tem sido pródiga, também neste Verão, em distorcer factos e achincalhar a Igreja-instituição e alguns párocos que servem as suas comunidades, com dedicação sem limites e, ao exigirem o respeito pelas leis eclesiásticas, na celebração das festas, só querem o bem espiritual dos fiéis e o respeito pelos valores religiosos.

Até quando teremos de enfrentar esta confusão generalizada entre religião e superstição, verdade e mentira, reino de Deus e reino de César?




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