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A oportunidade da imigração

Aimigração em que o povo português está, hoje, envolvido não é uma desgraça mas uma oportunidade positiva. No fundo, foi esta a mensagem que o Alto Comissário para a Imigração e Minorias Étnicas deixou, em Fátima, por altura da Semana Nacional da Pastoral Social. O tema foi “Imigração humanizada, desenvolvimento solidário”.

N/D
16 Set 2003

Ao contrário do que pensavam os organizadores, este assunto não sugeriu grande curiosidade, uma vez que a participação nesta Semana diminuiu cerca de 40 por cento. De facto, o povo português mais habituado às questões da emigração, ainda não digeriu bem o fenómeno da imigração. E isto apesar de termos entre nós cerca de meio milhão de imigrantes e com uma disparidade tão grande como aquela que é gerada a partir de cerca de 150 países diferentes. A imigração é, por isso, um fenómeno novo e que está ainda longe de se tornar um problema que inquiete o coração dos portugueses.
No entanto, apesar de ainda se teimar que não seja um problema nacional, ele já está aí implantado e, mais tarde ou mais cedo, vai haver muitas questões que os portugueses têm de enfrentar muito seriamente. Não interessa nem escondê-lo, nem adiá-lo, nem ignorá-lo. Por outro lado, quanto mais depressa se detectarem os problemas inerentes a esta nova situação, mais facilmente se poderão atalhar e resolver.

Neste momento, os problemas relacionados com a ilegalidade de vários milhares de imigrantes, a justiça e humanismo nas relações laborais e sociais, o reagrupamento familiar, a educação multicultural dos filhos e a sua inserção nas escolas e sociedade portuguesa, o apoio à diversidade religiosa, o respeito activo pelas diversas etnias e culturas, a informação dentro dum quadro e duma dimensão aberta e diversificada, são caminhos a percorrer os quais implicam muita capacidade de tolerância, compreensão e esforço do país que acolhe e também dos imigrantes que são acolhidos.

Concordamos que a mobilidade humana transnacional não pode ser feita à balda; que os ilegais têm de entrar dentro da legalidade; que as máfias obscuras que buscam o suor dos outros pela exploração, sem escrúpulos e de modo injusto e ilegal, têm de ser combatidas e exterminadas; que os salários devem ser atribuídos de modo justo e solidário; que as regalias sociais devem ser asseguradas a todos os trabalhadores sem qualquer distinção; que às crianças e jovens (e seus pais) devem ser proporcionadas estruturas e pontes culturais, sociais e religiosas para que a integração aconteça; que as escolas devem tornar-se espaços onde a diversidade cultural seja possível e desejada, com preparação adequada dos agentes de ensino; que seja estimulado e apoiado o associativismo dos imigrantes para que possam robustecer a sua identidade cultural e étnica e as Igrejas ou comunidades religiosas se abram a outras maneiras de crer e professar a sua religião e o seu culto.

Tudo isto deve partir não só duma legislação adequada e humanizadora que o Governo tem obrigação de fazer aprovar, mas também da abertura bilateral das partes intervenientes neste processo de acolhimento, diálogo e interacção. É necessário que se ultrapassem as mentes fechadas, onde o racismo e a xenofobia medram, para que se crie uma mentalidade sadia, tolerante e dialogante.

Neste sector da criação duma outra mentalidade muito podem contribuir os meios de comunicação social, tanto escritos como falados. E nestes tem prioridade os programas das televisões. Irá para o ar um programa na “Dois” que versará directamente os problemas dos imigrantes. Outros países já os fazem há muitos anos e esperamos que entre nós, sob a orientação do Alto Comissariado para as Migrações e Minorias Étnicas, produzam os seus frutos na devida altura.

Na Semana Social em Fátima pôde-se verificar que a imigração ainda não toca por dentro a maioria dos portugueses. Ando a escrever há vinte e tal anos, dizendo que os problemas da emigração têm que gerar um grande debate nacional. Nunca se fez este debate. Por isso, as causas da emigração nunca foram sanadas e o país continuou a crescer em duas velocidades – temos o país que temos.
Bastaria que as economias que os emigrantes enviam para Portugal fossem investidas nos seus próprios locais de origem, para que a maioria dos que partiram já tivesse voltado e o interior não estivesse, como está hoje, desertificado.

Neste momento debatemo-nos com o problema da imigração. Este debate, que já devia ter sido feito há muitos anos, tendo em conta os que partiram, é justo que se faça, agora, tendo em conta os que vão chegando. Amanhã pode ser tarde e, depois, teremos de continuar a deitar remendos, como vem acontecendo.




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