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E se de noite um caterpillar…?

Ouvi recentemente a um autarca de freguesia uma história própria de filme de aventuras. Um belo dia, foi alertado por um freguês para o facto de um determinado muro, alto e antigo, ter desabado em parte para uma rua e ter outra parte a ameaçar ruína. A consciência do perigo iminente fizera o cidadão tomar a iniciativa de alertar quem detém autoridade para desencadear alguma acção preventiva.

N/D
15 Set 2003

A surpresa veio a seguir. Quando uma equipa de operários chegou ao local, verificou que o muro não desabara. Fora derrubado por máquinas potentes que encontraram nessa empolgante forma de penetrar numa propriedade o caminho para deitar abaixo, pela calada da noite, uma mansão vetusta, de vistas airosas, cercada de lindos jardins.
Quem contava e ouvia o episódio logo ali, perante os circunstantes, escutou outros testemunhos de heroicidades análogas: a casa abrasileirada ao fundo da rua longa, que sumiu da noite para o dia; a vivenda estilo arte nova na praça perto do centro que foi um ai que lhe deu.

Na versão mais suave, o prédio vem abaixo, sob a fúria indomável do caterpillar, mas fica uma parede ou um bocado de parede, para fazer de conta que…

Aqui há tempos, um português que enriqueceu na cidade de São Paulo com uma empresa de terraplanagens, contava algo que parece estar a ser copiado a papel químico (agora seria papel digital). Quando alguém pretendia urbanizar uma zona ocupada de verduras ou de casas de valor arquitectónico, contornava as disposições legais com a política do facto consumado: durante a noite, as máquinas e os camiões avançavam sorrateiros, limpavam o terreno e quando o sol raiava, era quase só começar a construir. Ninguém via o trabalho sujo e, uma vez ele feito, as próprias autoridades rendiam-se à evidência. A partir daí, funcionava a lei do progresso. Os cogumelos de várias dezenas de andares irrompiam com furor. Isto passava-se há 30 ou 40 anos.

Atrasados como sempre, “lá vamos cantando e rindo”, na senda do progresso “levados, levados sim”. Não sei se o trabalho nocturno é ou não pago, neste caso, a preço diferente do diurno (se bem que cada vez menos isso seja relevante). Mas, do ponto de vista da preservação da memória dos lugares e da própria manutenção da nossa segurança, não será desavisado que, quando escutarmos de madrugada os motores das máquinas de terraplanagem, ponhamos a hipótese de não estarmos perante um madrugador que vai cedo para o trabalho. Não vá ele confundir-se no endereço e limpar o terreno onde se encontra a nossa casinha.




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