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Elogio do silêncio

É quase impossível imaginar quantas pessoas terão comprado o livro Elogio do Silêncio, de Marc de Smedt, distribuído num dos sábados de Agosto com o “Público” (a obra que agora integra a “colecção XIS livros para pensar” já tinha sido publicada em Portugal, em 2001, pela editora Sinais de Fogo). E é também difícil saber quantos portugueses se interessarão por um tema – o silêncio – que tantas vezes se considera ser apenas um vago problema de “velhos” ou de gente esquisita.

N/D
14 Set 2003

Alain Finkielkraut, um ensaísta francês, tem vindo a defender a necessidade de se fundar uma “internacional dos amigos do silêncio”.
Para ele, o triunfo do barulho é a única calamidade ecológica de que ninguém fala. Para um diagnóstico – muito pouco exaustivo, aliás – que regista que é “cada vez maior o número de motos que petardam, cada vez maior o número de cantores que cospem os seus ritmos binários nas orelhas de toda a gente, cada vez mais frequente estabelecer-se uma associação entre vida, festa e percussões (mesmo nas manifestações de agora se adoptou o hábito de dançar)”, há uma terapêutica que se impõe urgentemente: “Reabilitar este doce companheiro caluniado, o silêncio”. Uma tarefa assaz difícil.

Os dois objectivos imediatos do novo internacionalismo, que Alain Finkielkraut enunciou num artigo publicado no “Libération” (15 e 16 de Janeiro de 2000), seriam: calar a música ambiente nos cafés (“nem a música, nem as conversas merecem um tal vandalismo sonoro”) e obrigar os que telefonam freneticamente nos comboios a levantar-se para satisfazer na solidão a sua necessidade irreprimível.

Uma recusa, neste caso, levaria a que, em troca, alguém pegasse na escova de dentes, num copo, numa pasta dentífrica, numa cuvete e iniciasse uma limpeza de dentes em frente do viciado no telemóvel. “Se já não há espaço público, há que tirar as devidas consequências”, observa Finkielkraut.

“Como é que se poderão reconhecer os amigos do silêncio?”. O ensaísta sugere que eles se distingam praticando uma acção simples: oferecer búzios para que o prazer de ouvir o mar possa ser reconquistado e partilhado.

“Vivemos num mundo em que o poder mais terrível é o ruído. O silêncio é o luxo mais caro. É preciso ser muito rico para conseguir não escutar a música do vizinho”, diz George Steiner (a boa insonorização das nossas habitações não é, como se sabe, uma tarefa que ocupe o tempo dos empreiteiros).

O intelectual judeu, frequentemente classificado como um dos últimos representantes da cultura humanista, um herói sábio e crepuscular, afirma que “as crianças têm terror ao silêncio, mas os adultos também.

É por isso que nos põem música nos elevadores. Para cúmulo, há esses telemóveis idiotas que atacam a tranquilidade das pessoas”. George Steiner julga que há, contudo, uma esperança: neste momento, em todo o mundo, milhões de adolescentes lêem os livros, difíceis e volumosos, de Harry Potter. “Esses jovens precisam de silêncio e dizem aos pais para desligarem a televisão”.

É desnecessário acrescentar outros exemplos de culto ao barulho, de horror ao silêncio, um horror que, frequentemente, se casa com o ódio ao bom-gosto, como sucede com essas pavorosas “composições musicais” que se é condenado a ouvir enquanto se aguarda uma ligação telefónica. Há “músicas” que, como se poderá comprovar, dizem tudo sobre os serviços que as usam.

O livro de Marc de Smedt fala de outros silêncios e não apenas dos permanentes e intensos barulhos que provocam “um stress constante que desgasta os nervos, faz as pessoas viverem em tensão permanente e torna a existência insuportável”. Mas é a denúncia dos ruídos que danificam o quotidiano que importa sublinhar. Mesmo quem aprecia o bulício estimulante das cidades concorda que há uma linha que não deve ser ultrapassada. Mas, para lá desse limite, estão milhões de pessoas.

“Milhões de pessoas a viverem no meio desta permanente poluição sonora, sem darem conta disso, o hábito criando uma espécie de inconsciência, e como nos podemos admirar perante as trombas torcidas em todo o lado, contrariadas, perante estas fisionomias desfiguradas pela irritação e o cansaço, envenenadas por este barulho constante e pelo ar viciado”.

No seu Elogio do Silêncio, Marc de Smedt considera que “as grandes verdades são simples de enunciar, mas cada vez mais difíceis de aplicar”. Não obstante, “é preciso decidirmo-nos por uma mudança de rumo que transforme a nossa civilização, ilumine os espíritos, privilegie a saúde, um mundo onde o respeito pelo outro predomine”. Ámen.




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