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Puxar ou empurrar?

Para deslocar um objecto, ou até uma pessoa, podemos fazê-lo de dois modos: puxar ou empurrar.Ora cabe agora perguntar qual será melhor. Vamos analisar alguns factos e depois tentar concluir, sem que o afirmado não possa ter excepções.

N/D
13 Set 2003

Já repararam, neste tempo de praia, como fazem os vendedores de gelados com os carros que os transportam? Se ainda o não fizeram ainda estão a tempo de o fazer.

Eles puxam os carros e não os empurram, porque a força aplicada decompõe-se em duas: uma horizontal que provoca a deslocação e outra vertical; esta quando se puxa tem o sentido ascendente e faz, pois, com que as rodas não se enterrem na areia, facilitando assim o movimento e diminuindo o esforço; a mesma força vertical quando se empurra tem o sentido descendente e faz com que as rodas se enterrem na areia, aumentado o esforço.

O grande general que foi Dwight David Eisenhower, comandante das forças aliadas durante a Segunda Guerra Mundial na África do Norte (1942-1944) e na Europa (1944-1945), mais tarde comandante das forças do Pacto do Atlântico Norte na Europa e por fim Presidente republicano dos Estados Unidos, referindo-se um dia ao melhor método de comandar, lançou este repto a quem o ouvia: peguem num fio (por exemplo, um «fio de norte», como nós dizemos), coloquem-no esticado em cima de uma mesa; depois puxem-no e em seguida empurrem-no. O que acontece? No primeiro caso o fio desloca-se – obedece; no segundo caso deixa de estar esticado, enruga-se, mas não se desloca – não obedece.

Podemos então concluir a priori que dá mais resultado puxar do que empurrar.
Passemos então a situação para o campo da educação. Estamos a puxar ou a empurrar a nossa juventude? Os nossos governantes aproveitem o tempo de férias para pensar nisto.

A conclusão está à vista – estamos a empurrá-la e de que modo para um abismo ou então para uma beco sem saída e para isto muitos factores concorrem.

Primeiro modo de empurrar – os jovens depois de, pelo menos oito anos, submetidos a uma avaliação contínua, são obrigados a fazer Provas Globais, que são a negação da avaliação contínua, e ainda, este ano, a Exames a nível nacional.

À primeira vista parece que os Exames a nível nacional seriam uma tentativa de minimizar as variações de critério, mas tal não acontece e os nossos estudantes perdem, por vezes em duas horas, o que ganharam durante um ano, numa situação de pouca sorte.

As consequências estão patentes: não têm média para ingressar no Ensino Superior Público e das duas uma – ou têm posses para recorrer ao Privado e Cooperativo, que o Estado subsidia com uma miséria e que portanto é caro para o cidadão que pagando os seus impostos ainda tem que gastar largas dezenas de contos para que os seus filhos não fiquem um ano entregues à “boa vida” e que já sabemos que não é, regra geral, uma “vida boa”, uma vez que “o ócio é pai de todos os vícios”, ou não têm posses e os jovens ficam mesmo à espera da próxima oportunidade que em alguns casos demora dois ou três anos.

O que estão os responsáveis a fazer com isto? A empurrar os jovens para uma vida de ociosidade e como querem ocupar o tempo e precisam de dinheiro é sempre a altura propícia para aparecer o “tal amigo” que oferece a solução: para ajudar o mau bocado, começa o consumo da droga; daí vai um salto para passador, para angariar mais fundos e por fim chega ao topo da carreira – traficante.

Se depois do primeiro consumo, para esquecer o mau bocado, não se toma passador, arranja outro modo de obter fundos: roubando, assaltando, matando até se for preciso – entrou na bola de neve…

Segundo modo de empurrar – facilitar aos jovens todo o tipo de distracções, cada qual a mais perigosa: viagens a baixos preços com alojamento promíscuo, acompanhados de monitores/as de peso, mas só da cabeça para baixo, pois que os rapazes e as raparigas convivem de dia e de noite “numa boa”.

E digo “numa boa”, porque os responsáveis pelos programas contra a propagação da Sida fazem passar na TV um anúncio execrando, lembrando aos jovens que partam para férias, mas não esqueçam o famoso preservativo, para assim fazerem “sexo seguro”. Além de incutir a ideia que um/a jovem não podem divertir-se sem relações sexuais, ainda os levam ao uso da “roleta russa”.

E depois admiram-se que no nosso país os casos de Sida estejam a aumentar num ritmo alucinante.

Terceiro modo de empurrar – os pais, em vez de merecerem a amizade dos filhos o que levaria a que estes em momentos de dúvida a eles recorressem, vivem egoistamente, pensando que já fizeram muito dando-lhes a vida. Um arquitecto que se preza, depois de feito o projecto de uma obra, acompanha-a passo a passo, quanto mais um filho/a que não é uma coisa, mas uma pessoa.

Assim empurram-nos porta fora para que não sejam incomodados. Podem-me objectar que, actualmente, poucos jovens fazem férias com os pais. Eu concordo – eles só gostam de estar com os amigos e os pais não fazem parte desse mundo.

E por que não tentar puxá-los? Na base está geralmente o comodismo e o egoísmo. Mas puxá-los para quê? Para divertimentos sadios, convivendo eles e elas como deve ser, arranjando os pais festas onde tal seja possível, evitando o recurso às discotecas que se estão a transformar em antros de crime organizado, em muitos casos, como é do domínio público.

As férias são muito longas, sobretudo no fim do 12.° ano, e os jovens podem dar um pouco do seu tempo para tarefas de voluntariado, para aprofundamento cultural, para viagens recreativas e culturais sadiamente organizadas, etc. Custa esforço? Isso é verdade, mas vale a pena tratar de preservar para o século XXI os jovens para que não cheguem aos trinta anos mais velhos e gastos que muitos septuagenários.




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