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Carta aberta

Amigo Correia *, na manhã de 4 de Setembro, o telefone deu-me, pela voz de um nosso comum amigo, a notícia, inesperada e cruel, da tua viagem pelo mundo metafísico… Ainda na véspera me havia telefonado outro nosso amigo a informar-me de que não estavas nada bem…

N/D
12 Set 2003

Perante o acontecimento sinistro da tua partida, sinto na alma a frustração da impotência humana frente à lei inexorável da morte. Tema tão antigo como a humanidade – o da morte -, sempre me suscitou e suscita considerações e raciocínios que me deixam acabrunhado, triste e sem orientação luminosa capaz de me aquietar na busca dos porquês…
Partiste, amigo e conterrâneo José Correia! Com três quartos de século de existência, a tua vida, repartida por variadas etapas, não pode nem deve ser vista, apenas nem sobretudo, à luz fúnebre e embaciada da última pressão do interruptor… Não, amigo Correia, não! A tua vida, como a de qualquer mortal, valeu pelo seu todo, muito mais do que pelo apagar da luz…

Conhecemo-nos e convivemos, ainda adolescentes, na idade madura, e até nos preparativos dessa viagem que agora iniciaste… Foste um homem de trabalho, físico, social e espiritual… Orientaste a tua vida pelo ditâme fecundo do “ora et labora” (“reza e trabalha”)… Várias vezes te encontrei exercendo a função de “podador” e atador da vinha, quer humana quer evangélica…

Eras uma pessoa simples, prestável, amigo dos amigos e por vezes até de quem o não merecia ou não esperava… Por terras de Fafe e de Famalicão, deixaste marcas indeléveis de serviço aos outros…
A tua obra falará por ti aos vindouros, em linguagem eloquente de quem aponta caminhos, seguindo-os…

Eras o “Zé” para mim e eu, para ti, o “Manel”. Se nem sempre víamos as mesmas realidades olhando no mesmo sentido, ambos éramos sensíveis ao “uno”, ao “belo” e ao “bom”… Fizémos parte, em naipes diferentes, de orfeões em que eras seguro barítono…!

Adeus, “Zé Correia”! Condolências aos teus familiares! São Martinho do Vale te manterá vivo e operante! Os teus condiscípulos te choram e, com eles, o amigo.

* Nota da Redacção: Sacerdote que, como refere esta carta, faleceu no início deste mês com 75 anos de idade em Vale São Martinho, Vila Nova de Famalicão; natural da freguesia vizinha – Vale São Cosme, onde foi sepultado -, residia naquela, onde foi pároco durante mais de 40 anos (1960-2001).




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