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A fase seguinte da guerra

Donald Rumsfeld, secretário da Defesa dos Estados Unidos, celebrando a vitória e felicitando as forças armadas americanas, definiu o Iraque – conforme relatava o diário El País (17.04.2003) -, como «um gigantesco laboratório», onde o exército aprende «coisas muito necessárias» para futuras operações bélicas, e considerou provável novas guerras do género no futuro: «temos que nos organizar e reformar alguns dos nossos serviços para que a transição, esse momento em que um regime caíu e a nova administração ainda não existe, seja menos agitada». A verdade é que o «gigantesco laboratório» acabou por se tornar uma terrível e continuada ameaça à segurança das vidas de civis e militares, redundando numa situação caótica e anárquica de imprevisíveis consequências.

N/D
11 Set 2003

Se o objectivo era a democratização dum regime iníquo, se era também a destruição de temíveis armas (que ainda não se encontraram), à vitória militar conseguida não se seguiu nem uma nem a outra das finalidades almejadas. Terá razão o americano e professor Benjamim R. Barber, quando dizia que não era apenas a mudança de regime no Iraque o fim em vista; o objectivo era não só libertar a região de um brutal tirano, mas colocar o Iraque, e o Médio Oriente, dentro das fronteiras dos EUA, numa espécie de “estado-unidização” mundial disfarçada de democratização, com base na nova doutrina da “pax americana”, segundo a qual as fronteiras se estendem até abarcar e assimilar regiões perigosas para os EUA.
Diz-se com ironia, nos EUA, que uma guerra serve ao menos para que os americanos aprendam a situar geograficamente o adversário no mapa. O trágico da realidade é-nos dado num estudo preparado pelo Instituto de Estudos Estratégicos do Departamento de Defesa dos EUA, onde se indica que «os problemas de segurança nacional do século XXI se centrarão em conflitos sobre a propriedade e distribuição de resursos energéticos em todas as partes do mundo, mas muito em especial no Golfo Pérsico e na região do Cáspio», áreas definidas como vitais para os EUA.

É inegável o mal das maquinações de terroristas niilistas, produto de ideologias intoxicadas de intolerância e de fanatismo religioso; é inegável também o mal da política opressora do desaparecido (?) Saddam Hussein; contudo, não pode dizer-se que seja este o único malfeitor do planeta. Não devemos, contudo, esquecermo-nos de situações históricas às quais os EUA, pelo seu extraordinário poder militar e económico, contribuíram de certo modo para suster e apoiar. O Iraque foi já apoiado pelos EUA (na guerra contra o Irão), como o foi o Afeganistão e a Al Qaeda (em luta contra a então URSS); quantas vezes a História mostra que as conveniências de curto prazo são graves problemas no longo prazo. Há também algo de inquietante na simetria antitética da retórica com que a Al Qaeda retrata os EUA, qual país de infiéis que faz o trabalho do diabo, e a posição dos EUA que, recorrendo a linguagem vetero-testamentária, vem a retorquir de modo análogo, identificando o “eixo do mal” (que é efectivamente do mal), para condenar a Al Qaeda enquanto dirigida por malvados (que são de facto malvados).

Os EUA de George W. Bush, arquitectado pelos ideólogos neoconservadores em voga, conheceram uma glória erigindo a superpotência como árbitro internacional, quase passando uma certidão de óbito às Nações Unidas, como ostensivamente o secretário da Defesa o dizia. O atentado contra a ONU veio tragicamente mostrar um outro lado da realidade: para além da trágica constatação quotidiana em que morrem militares civis, veio a impor-se uma imprevista anarquia que começa a espalhar-se de Bagdad a todo o Iraque, numa insegurança total, com a consequente paralisia de todos os serviços públicos; desde a primeira Guerra do Golfo, em 1991, o ritmo do crescimento per capita dessa região foi, em média, o mais baixo do mundo; de facto, tem decrescido; se o Iraque estava a par de Portugal antes da guerra de 1991, está agora ao nível da Somália.

A situação é tão dramática que a uma retirada militar seguir-se-á certamente a guerra civil, devastações, extermínios étnicos, a própria clivagem do Iraque em vários Estados (pelo menos o dos xiitas, o dos sunitas, o dos curdos). Acresce uma hostilidade ostentada da população, crescente, especialmente dos sunitas, pessimismo agravado com os dois atentados recentes, contra a ONU e contra o xiita Hakim, que foram um golpe duro no pós-guerra e nas tarefas da reconstrução duma sociedade e dum Estado. Os efeitos dos atentados, como o terror e a insegurança, são dimensões invisíveis e não se combatem com evidências; os novos ícones do mal são indivíduos e organizações ocultas e não localizáveis; a luta contra o terrorismo não pode ser justificada mediante provas, mas por indícios que ninguém tornou visíveis; assim não será difícil condenar alguém com provas como as que exige o Estado de direito, isto é, evidências visíveis. Não somente são invisíveis os culpáveis, mas também os seus objectivos, muitas vezes indeterminados e, por isso mesmo, inegociáveis.

Tudo o que foi previsto falhou; tudo se desmoronou. O Iraque tornou-se o terreno de resistências imprevistas e de redes terroristas que liquidam quaisquer perspectivas de solução. E o pior é que uma retirada seria uma catástrofe, com a liquidação do próprio Iraque, que se pulverizaria nas lutas entre xiitas, sunitas e curdos. A realidade veio mostrar mais: se a guerra não foi difícil de vencer, a paz mostrou-se tarefa ciclópica, para a qual os americanos não estavam preparados, como as semanas do pós-guerra puseram em evidência; com a situação caótica após a vitória americana, torna-se difícil entender como os estrategas (supostamente “bons estrategas”) não lobrigaram os problemas que se seguiriam, isto é, não entenderam “o dia seguinte à guerra”; se bem é possível vencer uma tirania com caças F-18 e tanques M-1, não é possível estabelecer uma democracia com o mesmo método. Oxalá não seja tarde para que a reviravolta dada agora pela Administração Bush, pedindo uma cooperação internacional para vencer a situação do pós-guerra, apelando ao multilateralismo para desarmar a “paz fortemente armada”, não seja tardia.




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