Fotografia:
O lançamento da biografia de um ditador

Cada partido, cada cidadão, num estado que vive em democracia pluralista, tem possibilidade de emitir as suas opiniões sobre os eventos públicos que vê acontecer à sua volta. É óbvio que, por característica própria deste tipo de regime político, a diversidade de pareceres enriquece a capacidade de escolha dos eleitores que encontram na força do seu voto o modo mais propício e costumeiro de contribuir para a orientação da vida do seu país.

N/D
10 Set 2003

Pelo contrário, um sistema autoritário, que teme a liberdade de imprensa, da expressão franqueada das ideias, não tolera que se divirja da “verdade” oficial, fabricada e exigida pelos seus próceres como a única expressão da “realidade” em que os cidadãos vivem. O que a classe dominante ditamina como “o que é”, eis o que se deve aceitar sob pena de sanções. O cidadão não pode pensar diferente, sob pena de perturbar a vida pública, que tem de se encarreirar pelas vias coercivas oficiais e não pelas da livre opinião, onde posições diversas, como na mais genuína democracia, são o pão nosso de cada dia.
Tudo isto vem a propósito da recente apresentação, na festa mais notória de um dos tradicionais partidos portugueses, da biografia de um chefe de estado nosso contemporâneo, que não há muito tempo anuiu e ordenou a execução de um punhado de cidadãos que queria fugir da sua pátria, a fim de encontrar melhores condições de vida noutro país vizinho.

Creio que a nenhum português lhe passou pela cabeça que o nosso primeiro-ministro ou o senhor Presidente da República, sejam os actuais, sejam os de outros governos ou de outros mandatos presidenciais que os antecederam em Portugal desde a estabilização da democracia, procederiam do mesmo modo, no caso de um cidadão tentar atravessar a fronteira para encontrar melhores condições salariais para si e para a sua família. Quando muito, se algo de semelhante sucedesse, sempre lançaria a dúvida a respeito da idoneidade criminal do cidadão. Em qualquer dos casos, pelo menos o governo teria de haver-se com jornadas parlamentares de esclarecimento, habitualmente muito desgastantes, mesmo que a razão pudesse estar, de algum modo, do seu lado, por se concluir, de forma clara e nítida, que se tratava dum criminoso em fuga, que tentou balear a GNR que lhe andava no encalço, que esta só ripostou em legítima defesa, etc., etc., etc. Ou seja, num regime democrático, apesar das suas limitações, há uma série de regras e de possibilidades que evitam as arbitrariedades ou as dificultam.

No caso da biografia em questão, está-se a apresentar a figura dum ditador, que não permite a pluralidade de opiniões políticas, que conserva a pena de morte como forma de calar quem o contesta ou de quem, pura e simplesmente, pretende encontrar melhor vida noutro lugar, que não admite a existência de outros partidos políticos, que limitou profundamente a liberdade religiosa, que mantém presos políticos nos cárceres – quando não os eliminou fisicamente -, etc. Decerto que ficamos satisfeitos por saber que esta obra agora lançada só foi publicada depois de vencer muitas resistências do próprio biografado, pessoa que não aprecia muito que falem de si e não gosta, como outros ditadores, de fazer luzir o seu nome em monumentos, instituições, praças, ruas e outros lugares do país que domina há muitas décadas. Do mal o menos.

Também nós, em Portugal, não podemos deixar de reconhecer, que durante quarenta anos, imperou quem tinha os mesmos costumes de reserva e discrição. Com uma diferença: poupou-nos discursos abundantes e quilométricos, deixando, porém, a todo o apreciador da língua pátria – disposto a abstrair do conteúdo material das suas palavras – textos magníficos de bom português. Serão assim as peças oratórias do biografado a que nos referimos? Não podemos julgar por desconhecimento.

O que nos choca como cidadão dum estado democrático pluralista – embora não contestemos a licitude da iniciativa de quem patrocionou esta apresentação – é o facto de um partido português, com assento na Assembleia da República, depois de tantos anos de vida em democracia, continuar a manter tanto apreço por um ditador ineludível, ao ponto de promover uma biografia sua na festa do jornal que edita. Questão de gosto? A queda do muro de Berlim, a “perestroika” e outras etapas significativas do mundo contemporâneo não lhe dirão nada?

Pensemos alto: depois do fim do regime de Pinochet, muito mais curto do que o deste chefe de estado, o Chile entrou numa democracia pluralista. Se algum partido de direita o quisesse encomiar, haveria cobras e lagartos. Com este ditador, que se aferra ao poder como a lapa ao rochedo, esperemos que a sua terra, logo que lhe seja possível, conheça o mesmo rumo do simpático país sul americano.




Notícias relacionadas


Scroll Up