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O ramal de caminho de ferro de Braga

“… Havia uma política de transportes, perfeitamente consistente para a época. Já havia a exploração dos transportes urbanos pela SOTUBE, que fazia o interface entre a periferia e o centro urbano.

N/D
9 Set 2003

Existiam os Tróleis que substituíram os Eléctricos no centro urbano, e os bracarenses sabem quem desmantelou esse meio de transporte. A rodovia e as avenidas eram claramente sobredimensionadas para o tráfego automóvel que existia na altura… Com um Presidente como Santos da Cunha, estou convencido que Braga já não teria o ramal de caminho de ferro. Esse beco estaria já transformado em linha de metro de superfície, como as de Estrasburgo, ou Grenoble. A estação de Braga seria em Nine, ligando-nos esta às principais linhas de caminho de ferro, onde seguramente passará o TGV.
Sem dúvida, o caminho de ferro tornar-se-á na única alternativa para os bracarenses face ao actual e trágico tráfego rodoviário. A política dos países ditos mais civilizados é claramente a aposta neste meio de transporte. A linha de metro a atravessar Braga, até Gualtar, induziria o crescimento da cidade na direcção do vale do Este, e Braga cresceria sem a actual asfixia. Parece-me que a qualidade de vida dos bracarenses aumentaria drasticamente. Mas não temos Santos da Cunha, temos Mesquita Machado». Assim, durante o último mandato, terminávamos nós uma intervenção na Assembleia Municipal de Braga, que depois foi publicada neste mesmo jornal.

Quando assistimos à monstruosidade que se está a levar a cabo no antigo Largo da Estação e caminho para o Lugar do Penedo, associada ao desperdício de milhões de contos dos contribuintes numa solução completamente desligada daquilo que seriam as necessidades dos munícipes bracarenses, chega-nos a apetecer dizer que os bracarenses merecem o que têm tido.

Perdeu-se a grande oportunidade de acabar com o ramal de Braga. Só a palavra ramal indica logo a minoridade da solução encontrada para este concelho no início do século passado. Braga devia ter a sua estação central como um nó da rede nacional de transporte ferroviário, quer fosse em Nine, Viatodos, Couto de Cambeses, ou noutro local mais indicado. Aí não à regionalização!, da estação de Braga, o centro do Porto estaria a 20 minutos, Lisboa a pouco mais de duas horas, Vigo a menos de uma hora, e Corunha a menos de duas horas. Nessa estação de Braga seria possível pensar que eventualmente o TGV pudesse parar. Nessa estação de Braga seria possível ter um grande parque de estacionamento eventualmente gratuito.

Há poucos meses, numa sessão pública realizada no Hotel Turismo, e felizmente têm havido algumas nos últimos tempos nesta cidade, onde o fórum da Associação Comercial tem pontificado com oradores de excelência, o Professor Oliveira Marques, presidente do conselho de administração do Metro do Porto, dizia que à questão colocada pelo edil de Gaia, de onde colocar a estação no concelho para o TGV, respondeu-lhe Grijó. Isto porque, na Devessa dentro do centro urbano de Gaia era asneira, e Grijó ficava a dez minutos da Avenida da República, mas também a dez minutos de Santa Maria da Feira, como a dez minutos de Espinho, associado ao facto de não faltar espaço para se fazer como devia ser feito.

Aproveitando a oportunidade que se lhe deparou, Coimbra vai ter o seu metro de superfície fazendo uso do ramal de caminho de ferro desde a estação na linha do norte com o centro da cidade. Coimbra que é capital nacional da cultura, que tem um estádio pronto por muito menos de metade do custo do novo estádio de Braga, e com polivalência suficiente para se realizar até mesmo um concerto dos Rolling Stones. Mas todos sabemos que em Coimbra, Lisboa e Guimarães não houve Inverno…

No caso de Braga, a grande oportunidade de alternativa ao automóvel podia ser o metro de superfície, não por ser moda, mas porque a maior área de Braga está situada num vale, parecendo ser a solução alternativa mais indicada. Repare-se que o ramal chega junto à Grundig, em Ferreiros, acompanhando o vale do rio Este, podendo sem qualquer dificuldade técnica seguir até Lamaçães e terminando em São Pedro de Este. Mas infelizmente, o dinheiro que se está a gastar, porque parece-me que “gastar” é o termo correcto para o investimento no ramal e nas dezenas de apartamentos de tipologia T1 que se estão a construir na nova estação de Braga, poderia eventualmente ser utilizado numa obra verdadeiramente estruturante para o concelho. Se pensarmos que um autarca ambicioso não se limitaria a trocar o ramal por uma linha de metro, uma segunda linha poderia vir de Escudeiros, passando em São Paio de Arcos, Nogueira, cruzando a outra linha em Lamaçães, seguindo depois até Palmeira, ou eventualmente até Vila Verde. Nada mais do que o modelo da antiga Braga, que tinha duas linhas de trólei que dividiam a cidade em quatro parcelas.

É claro que o concelho de Braga não carece de metro, isto porque a sua população adora conduzir automóveis e estacionar nos parques da BragaParques. O que a população de Braga necessita é do Teleférico turístico prometido pelo edil bracarense e da linha de metro de superfície que ligue Braga a Guimarães, como o edil de Guimarães se lembrou antes das últimas eleições autárquicas. O teleférico de Guimarães, como todos sabemos, é um desastre económico que a população desse concelho está a suportar há vários anos. A linha de metro de superfície entre Braga e Guimarães é curiosa em vários pontos: o primeiro é que, a não ser que algum asteróide ou a divina providência actuem, será mais do tipo montanha russa, ou eventualmente, como ambos os autarcas são especialistas em teleféricos, poderão utilizar esse tipo de via, transformando-o no maior teleférico da Europa, ao jeito bacoco a que estamos já habituados; em segundo lugar, parece à primeira vista muito estranho que exista uma procura de utentes entre Braga e Guimarães que justifiquem um investimento dessa envergadura. Mas, neste último ponto, ao jeito a que nos habituaram de que o dinheiro é dos contribuintes e portanto gasta-se, não sendo importante saber se de facto existirá ou não retorno desse investimento, arriscamo-nos a que nos apareça um ministro do género do senhor Armando Vara, e lá iremos nós e os nossos filhos, netos e bisnetos, suportar mais um disparate surgido eventualmente de um jantar mais entusiasmado transformado numa realidade como a do teleférico de Braga e Guimarães.




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